Mantega reage a puxão de orelha do FMI

Para ministro, relatório que diz que País sofre brusca deterioração nas contas públicas são 'bobagens de um velho ortodoxo do Fundo'

Célia Froufe e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

Irritado com o "puxão de orelha" do Fundo Monetário Internacional (FMI), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, classificou ontem de "bobagens de um velho ortodoxo" as críticas do Fundo.

Com apenas alguns minutos na agenda antes de embarcar para São Paulo, Mantega convocou ontem a imprensa de última hora e de forma atabalhoada para contrapor, com palavras duras, a avaliação sobre a deterioração fiscal brasileira. "Acho que o diretor-gerente do FMI saiu de férias e algum velho ortodoxo do Fundo Monetário deve ter escrito esse relatório com essas bobagens sobre o Brasil", disse ao citar Dominique Strauss-Kahn.

Pode-se dizer que a avaliação do FMI foi uma virada de página do que se via até então. O Fundo foi um dos órgãos internacionais que mais deram apoio ao Brasil nos últimos anos e, mesmo quando as contas públicas começaram a sofrer deterioração no passado recente, o FMI chegou a ser condescendente com o País.

A posição brasileira em relação ao FMI também mudou nos últimos anos, com o País passando de devedor para credor. Isso pode ter ajudado a engrossar a voz do ministro Mantega, que disse ter telefonado para Washington para mostrar incômodo com o teor do relatório. "Mas ainda eram 7 horas da manhã e, por isso, não havia ninguém."

Déficit nominal. Por si só o teor do relatório teria peso, mas ganhou ainda mais força por ter sido publicado na véspera da divulgação dos números das contas públicas pelo Tesouro. Inicialmente, o resultado do Governo Central seria conhecido na próxima segunda-feira e há quem avalie que a antecipação ocorreu justamente para contrapor, com números, o Fundo. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, garantiu, no entanto, que os eventos não tiveram relação.

Para sustentar que o FMI errou, Mantega desceu até a portaria do ministério para falar com os jornalistas munido de papéis repletos de números. Ele apresentou a evolução de uma série de indicadores, como a queda do déficit nominal e da dívida líquida do setor público. Um exemplo de diferença de avaliação entre os dois é que o Fundo prevê déficit nominal - que inclui gastos com pagamento de juros da dívida pública - de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011 ante perspectiva do governo de 1,8% do PIB.

O ministro ressaltou ainda que houve melhora fiscal de 2009 para 2010, afirmação que posteriormente foi repetida pelo secretário do Tesouro.

"A nossa opinião é de que o FMI fez avaliações não aprofundadas, não corretas sobre nossa área fiscal", disse Augustin. "Fico sem compreender como pode uma situação fiscal que melhora ser criticada", continuou.

Sem desculpas. Apesar do alvoroço causado pelo ministro ontem ao convocar a imprensa justamente na hora em que estava prevista a entrevista de Augustin, ele disse que não pedirá desculpas formais do Fundo sobre o relatório. E tentou reduzir a relevância do documento: "Acho que não é um relatório muito importante".

Ainda sobre a questão dos gastos, Mantega disse que o Banco Central não fez nenhuma solicitação de aperto fiscal ao ministério. Esta, no entanto, foi a interpretação de analistas ao ler a ata da última reunião do Copom, divulgada na quinta-feira.

Segundo o ministro, a autoridade monetária está afinada com as diretrizes que estão sendo colocadas pelo governo e isso significa que o BC poderá fazer uma política monetária menos dura. "Em conjunto, podemos fazer um trabalho complementar."

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