Mantega, soldado solitário contra o Fed

Fundo Monetário Internacional e OCDE ignoram guerras cambiais e apoiam as políticas monetárias de americanos e europeus

ROLF KUNTZ, ENVIADO ESPECIAL/TÓQUIO, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2012 | 03h06

O governo brasileiro tem poucos aliados - se tiver algum - em sua guerra contra a política de afrouxamento monetário dos bancos centrais do mundo rico, principalmente dos Estados Unidos. O Fundo Monetário Internacional (FMI) apoia essa política, assim como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A presidente Dilma Rousseff referiu-se à grande oferta de dólares no mercado global como um tsunami e classificou como espúria qualquer vantagem comercial obtida dessa maneira. O ministro Guido Mantega usou essa palavra no discurso preparado para a manhã de sábado na assembleia do FMI.

O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, lançou no mês passado uma terceira rodada de afrouxamento monetário, em mais uma tentativa de facilitar o crédito e contribuir para a reativação da economia dos Estados Unidos. O objetivo declarado é estimular o consumo, o investimento e a produção no mercado interno.

Se essa estratégia servir para movimentar os negócios nos Estados Unidos, todos os demais países serão beneficiados e as reclamações serão infundadas, segundo o diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental, o colombiano Saul Lizondo, responsável no FMI pelo acompanhamento de todos os países latino-americanos e do Caribe.

Competição desleal. O ministro Mantega, assim como a presidente Dilma Rousseff, descreve a situação de outra maneira. Segundo ele, uma política baseada na expansão monetária levará muito tempo para produzir algum resultado positivo, mas terá em pouco tempo efeitos colaterais indesejáveis.

Excesso de oferta deve resultar em depreciação do dólar, encarecimento das exportações de outros países, incluído o Brasil, e barateamento das importações. O ministro afirma que essa é uma forma desleal de competição. Ele se preparou para dizer isso na reunião do Comitê Monetário e Financeiro do FMI, hoje, e num encontro com o secretário do Tesouro, Timothy Geithner.

A expansão monetária nos Estados Unidos e em outras áreas do mundo rico é apoiada também pelo secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), com sede em Paris, o mexicano Angel Gurría.

"Políticas monetárias de acomodação devem continuar, inclusive por meio de afrouxamento quantitativo", sustenta Gurría. Afrouxamento quantitativo é como foi batizada oficialmente a política do Fed de emissão de moedas em troca de títulos. Nas duas rodadas anteriores, o banco central americano comprou títulos do Tesouro em circulação no mercado e para isso emitiu enorme volume de dinheiro. Na terceira, a compra é de títulos hipotecários. A ideia é jogar até US$ 40 bilhões por mês no mercado, num programa por enquanto sem prazo para acabar.

O secretário geral da OCDE menciona o risco de possíveis consequências indesejadas, mas passa longe de qualquer referência a guerras cambiais e, portanto, das preocupações exibidas pelas autoridades brasileiras.

Políticas monetárias "acomodativas" têm sido recomendadas por economistas e dirigentes do FMI desde o agravamento da crise, em 2008, e têm sido seguidas tanto pelo Fed quanto pelos bancos centrais da Inglaterra, da zona do euro e, mais recentemente, do Japão. Também o BC chinês afrouxou sua política recentemente, para conter a desaceleração da economia e calibrar o crescimento do PIB em torno de 8% ao ano. É uma taxa inferior à da longa fase de expansão acelerada, mas ainda muito mais alta que a da maior parte dos países tanto orientais quanto ocidentais. Numa entrevista nesta semana, o ministro Mantega chamou a atenção para a sequência das decisões do Fed e dos bancos da China e do Japão, como se as duas últimas fossem reações à iniciativa americana.

Nem no comunicado do Grupo dos 24, formado por países em desenvolvimento de todos as regiões, há menção a uma guerra cambial.

Em vez disso, os autores do documento mostram-se preocupados com a desaceleração do comércio, com a especulação nos mercados de commodities e com o protecionismo no mundo rico, mas sem vínculo entre essa ideia e as políticas de moeda e câmbio.

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