Manual da desigualdade para idiotas

O Capital no século XXI, de Thomas Piketty, é o novo best-seller menos lido de todos os tempos

Nicholas Kristof, The New York Times

24 de julho de 2014 | 13h05

É possível que tenhamos agora um novo "best-seller menos lido de todos os tempos".

Dados da loja Amazon Kindle indicam que esse epíteto pode ficar com O Capital no século XXI, de Thomas Piketty, que chegou à primeira posição na lista de best-sellers este ano. 

Jordan Ellenberg, professor de matemática da Universidade de Wisconsin, em Madison, escreveu no Wall Street Journal que, em se tratando de afastar os leitores, o livro de Piketty parece ter grande vantagem em relação à concorrência: todos os cinco trechos destacados pelos leitores na plataforma Kindle ficam nas primeiras 26 páginas de um volume com 685 folhas.

A pressa dos americanos em comprar o livro de Piketty indica um desejo de compreender a desigualdade. A aparente pressa em abandonar a leitura indica que ele são apenas seres humanos, afinal.

Assim, decidi atender a essa demanda com meu próprio "manual da desigualdade para idiotas". Eis aqui cinco pontos principais:

1. Em primeiro lugar, a desigualdade econômica piorou bastante nos Estados Unidos e em alguns outros países. Atualmente, o 1% mais rico da população americana possui mais dinheiro do que os 90% menos ricos. De acordo com estimativa da Oxfam, as 85 pessoas mais ricas do mundo possuem metade de toda a riqueza global.

Talvez a situação fosse tolerável se uma maré enchente beneficiasse a todos os barcos. Mas os principais favorecidos são os iates. Em 2010, 93% da renda adicional gerada nos EUA ficaram com o 1% mais rico.

2. Em segundo, a desigualdade nos EUA se tornou um fator de desestabilização. Certo grau de desigualdade é essencial para a criação de incentivos, mas parecemos ter chegado ao ponto em que a desigualdade se converteu num obstáculo para o crescimento econômico.

Sem dúvida, o país cresceu mais rapidamente nos períodos em que éramos mais iguais, incluindo as décadas douradas após a 2.a Guerra Mundial, quando o crescimento foi robusto e a desigualdade chegou a diminuir. Da mesma maneira, um importante estudo publicado em abril pelo Fundo Monetário Internacional revelou que sociedades mais igualitárias costumam desfrutar de um crescimento econômico mais acelerado.

De fato, até Lloyd Blankfein, diretor executivo do Goldman Sachs, alerta que "uma parte grande demais… ficou com muito poucos", dizendo que a desigualdade nos EUA é agora "um importante fator de desestabilização".

A desigualdade cria problemas ao formar fissuras na sociedade, fazendo com que aqueles na base da pirâmide social se sintam marginalizados e desprovidos de direitos. Esse tem sido um problema clássico das "repúblicas de bananas" da América Latina, e os EUA têm agora um coeficiente Gini (um critério padrão de medida da pobreza) próximo de alguns países latinos tradicionalmente pobres e disfuncionais.

3. Em terceiro, as disparidades não refletem apenas a mão invisível do mercado, mas também a manipulação dos mercados. O economista e ganhador do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz escreveu um excelente livro publicado dois anos atrás, O Preço da desigualdade, uma leitura mais breve e e fácil do que a obra de Piketty. Em suas páginas, ele destaca: "boa parte da desigualdade nos EUA resulta das distorções do mercado, com incentivos voltados não para a criação de riqueza, e sim para tirá-la dos demais".

Os financistas, por exemplo, são ricos em parte porque investiram muito em sua formação e por trabalharem duro, mas também por causa do sucesso do seu lobby no Congresso, garantindo a eles a exploração da brecha fiscal dos lucros transferidos que lhes permite pagar uma alíquota de imposto muito inferior à dos demais profissionais.

Da mesma maneira, para um executivo da indústria farmacêutica, uma forma de gerar lucro é criar novos produtos. Outra forma é fazer lobby no Congresso para impedir que o programa Medicare, do governo, negocie o preço dos medicamentos. Isto corresponde a um presente anual de US$ 50 bilhões para as empresas farmacêuticas.

4. Em quarto, a desigualdade não chega nem mesmo a beneficiar os ricos tanto quanto imaginamos. Chega-se a um ponto em que a renda adicional não serve para saciar desejos, sendo usada apenas para comprar status por meio dos "bens de posição", como o carro mais bacana do quarteirão.

O problema é que só pode haver um carro mais bacana do quarteirão. Assim, o advogado que compra um Porsche é frustrado pelo diretor executivo que compra uma Ferrari, que tem seu tapete puxado pelo gestor de fundo de hedge que compra uma Lamborghini. Essa corrida armamentista deixa todos esses desejos por saciar: continua havendo um único lugar no topo.

5. Em quinto lugar, os progressistas parecem falar muito em "desigualdade", mas nem tanto em "oportunidade". Alguns eleitores são afastados por comentários envolvendo a desigualdade por dizerem que estes indicam uma inveja em relação aos ricos. O consenso é maior quando se fala em fazer com que todos tenham o mesmo ponto de partida.

Infelizmente, a igualdade de oportunidades é hoje uma miragem. Na verdade, os pesquisadores revelam que a mobilidade econômica nos EUA é menor do que na Europa, tradicionalmente mais consciente das questões de classe.

Conhecemos algumas das ferramentas que podem reduzir a diferença de oportunidades, como escolas melhores e incentivos ao emprego. Mas os EUA são um dos poucos países avançados que gastam menos no ensino da criança pobre média do que no ensino da criança rica média. Como facilitador da mobilidade, o sistema de ensino americano não funciona.

Ainda há muito que não entendemos a respeito da desigualdade. Mas, tendo lido Piketty ou não, há uma lição que todos devemos ter em mente: desigualdade e falta de oportunidade constituem atualmente uma vulnerabilidade e um ponto fraco para os EUA, e há ferramentas nas políticas públicas que podem fazer a diferença. Tradução de Augusto Calil

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