WILTON JUNIOR/ESTADÃO-4/7/2011
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Manutenção de Angra 3 já custou R$ 1 bi

Recursos foram usados apenas para preservar equipamentos comprados na década de 80; usina nuclear só deve gerar energia em 2019

André Borges, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2015 | 03h30

BRASÍLIA - Longe do dia em que começará a produzir energia, a usina nuclear de Angra 3, em construção no Rio de Janeiro, já consumiu dos cofres públicos nada menos que R$ 1 bilhão – ou US$ 300 milhões – para bancar a manutenção e a preservação de parafernálias nucleares adquiridas ainda na década de 1980, quando a obra foi iniciada. Esse rombo financeiro, que há 30 anos é alimentado pela máquina pública, só tende a aumentar, conforme informações obtidas pelo ‘Estado’ com a Eletronuclear, por meio da Lei de Acesso à Informação.

Depois de ser paralisada em 1986, apenas dois anos depois de sua construção ter começado, Angra 3 viu seus canteiros de obra serem retomados em 2009 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O plano era concluir a usina, que já possuía grande parte de seus equipamentos e vinha dragando US$ 10 milhões por ano para manter as traquitanas nucleares em condições de uso. Lula prometeu colocar Angra 3 para funcionar até maio de 2014. Esse prazo, no entanto, logo voltaria a cair na vala comum dos adiamentos.

Apesar de todas as dificuldades do projeto, a Eletronuclear decidiu que era hora de vender às distribuidoras de energia os megawatts que seriam gerados a partir da fissão nuclear do urânio de Angra 3. Em um leilão realizado na semana do Natal de 2010, a estatal do grupo Eletrobrás fechou contrato com as empresas e se comprometeu a entregar energia a partir de janeiro de 2016, daqui a cinco meses. 

Hoje, o cenário mais otimista prevê que a usina nuclear só vai começar a distribuir energia em janeiro de 2019, três anos depois do prazo que foi assumido com o setor elétrico. A data já está nas previsões do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável por administrar o abastecimento energético do País. Por mais três anos, portanto, os equipamentos seguirão em manutenção constante. 

A bomba financeira montada em Angra 3 não para por aí: a Eletronuclear está praticamente sem caixa para tocar as obras. Até o ano passado, a estatal conseguiu garantir um ritmo crescente de investimento, saltando de R$ 254 milhões aplicados em 2010 para R$ 1,447 bilhão em 2014. Neste ano, porém, os recursos escassearam. Para honrar o novo cronograma, está prevista a injeção de R$ 2,717 bilhões nas obras em 2015. Entre janeiro e maio, porém, segundo a Eletronuclear, o desembolso chegou a apenas R$ 322,7 milhões, 12% do esperado para o ano. Trata-se de uma bagatela, se comparado a todo dinheiro que ainda terá de ser despejado em Angra 3 para que a usina fique pronta.

Até maio deste ano, o empreendimento já tinha sugado R$ 4,782 bilhões em investimentos. Até dezembro de 2018, porém, a Eletronuclear prevê que essa cifra alcance cerca de R$ 16,1 bilhões, ou aproximadamente US$ 5,1 bilhões. 

Receita. Como se já não bastasse esse atoleiro financeiro agravado pelo atraso crônico nas obras, há ainda a frustração de receita que esse mesmo atraso vai produzir. Caso Angra 3 entrasse em operação a partir de janeiro de 2016, como tinha se comprometido, a Eletronuclear passaria a receber uma receita mensal de aproximadamente R$ 156 milhões por mês com a venda de sua energia, uma carga suficiente para abastecer as cidades de Brasília (DF) e Belo Horizonte (MG). O atraso de três anos nessa geração, portanto, vai custar à estatal uma frustração de receita de pelo menos R$ 5,6 bilhões.

No fim do mês passado, a empresa francesa de energia nuclear Areva, uma das principais fornecedoras de Angra 3, publicou um comunicado internacional para dizer que “reduziu temporariamente as atividades” na usina brasileira, por conta de atrasos da Eletronuclear em obter novos financiamentos para a obra. Quando a estatal garantir que encontrou “uma solução financeira sustentável”, declarou a Areva, a fornecedora retomará todas as atividades do projeto.

Pela lei de acesso, a Eletronuclear declarou que “está trabalhando na busca da recuperação dos atrasos e na antecipação do início da geração de energia elétrica para agosto de 2018, mantendo o início de operação comercial em dezembro de 2018.”

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