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Máquinas a todo vapor nos cafundós

Por que companhias decidem manter suas instalações industriais de alta tecnologia no meio do nada

The Economist, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2016 | 05h00

A costa atlântica da Irlanda é terra de criação de ovelhas, de caminhadas pela natureza e romarias. Na viagem até Tuam, uma cidadezinha de 9,5 mil habitantes, veem-se campinas verdejantes, colinas e mais colinas, cercas feitas com pedras e muita neblina. Apesar disso, o lugar tem seu lado industrial e tecnológico. Próximo à avenida principal da cidade, num conjunto de edifícios baixos, trabalham cerca de 400 engenheiros de software, pesquisadores e especialistas em inteligência artificial, provenientes de 35 países. No terreno ao lado, uma planta industrial emprega 650 pessoas, produzindo placas de circuito, câmeras e sensores para carros autônomos.

As instalações pertencem à Valeo, uma fabricante francesa de autopeças com valor de mercado de € 12 bilhões (US$ 13,4 bilhões), que, por meio da venda 100 milhões de unidade de produtos como esses, obteve um faturamento mundial de € 500 milhões no ano passado. “A unidade de Tuam é nosso maior centro de pesquisa e desenvolvimento de câmeras de visão ‘surround’ (que cobrem os quatro lados do veículo) e conta com enorme capacidade de produção”, diz o CEO Jacques Aschenbroich. Também opera como uma “planta mãe global”, supervisionando as atividades das fábricas de sensores que a empresa tem na Hungria, no México e na China.

O que teria levado a companhia francesa a manter esse tipo de operação num lugar tão remoto, distante de clientes como BMW, Range Rover e Google, afastado dos grandes centros de mão de obra especializada e a mais de duas horas de carro de Dublin? Parte da resposta está no passado: em 2007, a Valeo comprou a Connaught, uma bem-sucedida fabricante irlandesa de câmeras para automóveis, e preferiu expandir as instalações existentes, em vez de mudá-las para outro local. Fergus Moyles, que chefia a unidade de Tuam (e comandava a Connaught), diz não ser difícil atrair profissionais talentosos: a Universidade de Galway, que fica a pouco mais de 30 quilômetros, oferece um bom acesso ao meio acadêmico. Além disso, os preços dos imóveis são baixos, e isso atrai engenheiros estrangeiros, como os provenientes da Índia, por exemplo, que pretendem fazer um pé-de-meia enquanto estão na Irlanda. Como os terrenos também são baratos, a construção de novas instalações é facilitada.

Estabelecer uma planta industrial num ponto longínquo como Tuam vai contra o senso comum: costuma-se exaltar as vantagens das plantas instaladas em polos industriais. Mas a Valeo não é a única empresa a achar que vale a pena manter uma operação nas lonjuras. A fábrica da Turbomeca, que produz motores para helicópteros e pertence à Safran, grande empresa francesa do setor de defesa, fica nos Pireneus, na fronteira da França com a Espanha. Com apenas 2,7 mil habitantes, a cidade de Bordes, que abriga as instalações da empresa, faz com que Tuam pareça uma metrópole. Mais uma vez, a história explica a opção pelo lugar: fundada em 1938, pouco antes do início da 2.ª Guerra, a Turbomeca não tardou a trocar sua sede original, situada em Mézières-sur-Seine, no Norte da França, por uma localidade remota, onde eram maiores suas chances de se proteger da invasão alemã. Num município tão pequeno e tão pouco populoso, não é difícil granjear a simpatia das autoridades locais e a fidelidade dos funcionários.

Para fabricantes de produtos de primeira linha, que dependem de mão de obra altamente especializada, estar num lugar que ofereça clima agradável, boas condições de moradia e outras características atraentes, como escolas para famílias jovens, é um diferencial importante. Outro exemplo é a Medtech, uma startup que fabrica robôs cirúrgicos para cirurgias cervicais e cerebrais. Seus aparelhos da linha “Rosa” são largamente utilizados em hospitais americanos e europeus. Seu presidente e fundador, Bertin Nahum, criou e expandiu a empresa nos arredores de Montpellier, uma cidade cheia de encantos, não muito distante da Riviera Francesa.

Será que a startup não se beneficiaria de estar perto de outras fabricantes de equipamentos hospitalares de alta tecnologia, em polos como os que há em Grenoble, ou nas proximidades de Paris, por exemplo? “Prefiro muito mais continuar aqui”, diz Nahum, que fala com gratidão do apoio que recebe do prefeito de Montpellier e diz não encontrar problemas para contratar profissionais especializados. Seus robôs podem ser facilmente despachados no aeroporto de Marselha. Para alguns, a periferia é mais atraente que o centro.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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