Mar de capitão de corveta

O Brasil navega em ‘mar de capitão de corveta’ e as coisas estão complicadas: temos crise econômica, política, moral e vivemos uma verdadeira guerra interna

Antonio Penteado Mendonça, O Estado de S. Paulo

10 de agosto de 2015 | 03h00

Dizem que o melhor mar é o “mar de almirante”. Quando as águas estão calmas, as ondas são pequenas e embalam o barco num balanço gostoso, que descansa o corpo e a alma. A máxima vale para o mundo dos negócios e, dentro dele, o setor de seguros. Não tem nada mais fácil que tocar em frente em época de vacas gordas, com o mercado aquecido, o país crescendo, a sociedade ficando mais rica e melhor protegida. Duro é enfrentar “mar de capitão de corveta”. Ondas grandes, vindas de todos os lados, ventos de sul, chuva e cerração atingindo um barco da dimensão exata do cavado entre as ondas.

O Brasil navega em “mar de capitão de corveta”. As coisas estão complicadas. Temos crise econômica, política, moral e vivemos uma verdadeira guerra interna. Está ruim e o duro é que dá para ficar pior. Muito pior.

Num cenário em que a Presidência da República é refém da Vice-Presidência, da Presidência do Senado e da Presidência da Câmara de Deputados; em que o Congresso não quer fazer a lição de casa; em que os padrões éticos são derrubados dia a dia por exemplos negativos vindos de cima; em que a corrupção corre solta; em que o Judiciário está sobrecarregado; em que a inflação sobe e o crescimento cai; em que o desemprego puxa a inadimplência; em que a atividade econômica se retrai e os juros sobem; onde 50 mil pessoas são assassinadas e outras 60 mil morrem em acidentes de trânsito todos os anos; onde outras 600 mil ficam inválidas pelas mesmas razões; onde a saúde pública só perde para a educação do pior nível, em princípio, não tem como querer dar certo. Verdade? Não necessariamente.

Ninguém espera que algum setor da economia se descole da crise e cresça em patamares muito altos, mas uma análise mais ponderada da realidade mostra que algumas atividades serão menos afetadas do que outras. Entre elas merece análise o setor de seguros.

Durante os últimos 20 anos o setor cresceu em patamares bem acima da média nacional, se destacando pelas reservas geradas pelas diferentes áreas que o compõem.

O setor vai sofrer com a crise que afeta a indústria? Que tem mostrado uma piora significativa no comércio e uma retração nos serviços? Que compromete o crédito e a capacidade de pagamento? Com a inflação e o desemprego? Com certeza. Todos estes pontos afetam seu crescimento, tanto que não se espera para 2015 nada de parecido com o desempenho dos últimos anos.

Mas o cenário não é trágico, nem indica prejuízos extraordinários ou quebradeira de seguradoras. Ao contrário, o setor de seguros, de acordo com as previsões de grande parte dos executivos e especialistas, deve continuar crescendo acima dos patamares nacionais. E as razões para isso são consistentes. 

Apesar da queda nas vendas dos veículos zero, eles continuarão a ser vendidos e segurados. Além disso, os proprietários de boa parte dos carros com menos de cinco anos também continuarão a fazer o seguro de seus automóveis.

Da mesma forma, as empresas, ainda que com menos funcionários, continuarão a contratar seguros de vida. E os cinquenta milhões de pessoas protegidas pelos planos de saúde privados farão o impossível para mantê-los, nem que para isso precisem baixar de patamar. Boa parte de quem tem previdência complementar manterá seu investimento. Além disso, a população continuará acreditando na sorte grande e comprando títulos de capitalização.

O crescimento deve arrefecer, mas não há razão para faturar menos que no ano passado. Se não acontecer um acidente de percurso, o setor terá desempenho positivo. 

Além disso, toda crise um dia passa e o Brasil, pelo menos no campo econômico, é maior do que esta. O problema é os que podem quebrar sem ter culpa nenhuma, os que têm clientes afetados pela crise e que diminuirão ou cancelarão seus seguros.

A boa notícia é que depois do maremoto o setor tem muito a crescer. Milhões de imóveis residenciais e empresas; centenas de milhares de profissionais; a maior parte do agronegócio, etc. Quem fizer a lição de casa estará numa posição privilegiada quando a tormenta passar.

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA É SÓCIO DE PENTEADO MENDONÇA E CHAR ADVOCACIA, SECRETÁRIO GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS E COMENTARISTA DA ‘RÁDIO ESTADÃO’

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