Maratona para pagar conta de celular clonado

Em maio, o consultor Sérgio Luís Magni foi surpreendido por um telefonema da Telesp Celular que comunicava que seu aparelho havia sido clonado. Acatando a sugestão da operadora, ele trocou de linha. Uma semana depois, o celular foi novamente clonado. A empresa deu novo número, que o consultor passou a utilizar somente para fazer ligações e os telefonemas feitos para o número anterior eram automaticamente transferidos para esse último. Resumindo: em duas semanas, foram duas clonagens e três números diferentes de celular. No entanto, os problemas não terminaram por aí. Magni recebeu uma fatura simplificada para pagamento, em que não constavam nem o número do celular, nem as ligações efetuadas. "Uso meu celular para trabalhar e a fatura precisa ser detalhada, como sempre foi, porque é a empresa onde trabalho que paga a conta e precisa saber como foi utilizado o aparelho." Além disso, o valor cobrado era bastante superior ao de outras contas. Ele entrou em contato com a operadora, que emitiu nova fatura, com redução no valor. "Fui informado de que aquele valor foi tirado pela média das contas anteriores." O consultor reclama, porém, que, apesar do desconto, a fatura continuou vindo simplificada e, portanto, ele não tinha como passá-la para a empresa pagar e teve de bancar com o dinheiro do próprio bolso. Linha do celular cortadaEntretanto, a linha do celular foi cortada e a fatura seguinte veio novamente simplificada. "Desde então, estou pedindo a listagem das ligações e eles não me mandam. A conta já venceu, eu não paguei porque não recebi a fatura detalhada e, provavelmente, vão cortar meu celular outra vez. Já falei com umas 50 pessoas na Telesp Celular." O colega de empresa de Magni, o consultor Marcos Roberto Braghiroli, vem enfrentando o mesmo problema. Ele foi procurado pela Telesp Celular e comunicado da clonagem do aparelho, tendo, também, trocado de número. "A postura da empresa com relação à clonagem foi supereficiente. O problema é o que ocorreu depois." A maratona para conseguir pagar o valor correto foi igual à do colega. Ele recebeu uma fatura sem o devido detalhamento e queria saber o que estava sendo cobrado. Em contato com a operadora, solicitou a fatura detalhada e foi informado de que, em breve, a receberia. "Me informei com outras pessoas que tiveram o aparelho clonado e ninguém recebe a tal fatura detalhada." Depois de muito insistir, recebeu uma listagem de ligações locais, que totalizavam R$ 0,00. "Aquilo não tinha absolutamente nenhuma relação com o que eu estava pedindo." Enquanto tentava acertar a situação, Braghiroli recebeu três comunicados de que teria a linha cortada. Dito e feito: ele ficou uma semana sem o celular. Somente depois de muita insistência, o consultor conseguiu receber a listagem detalhada, incluindo até as chamadas internacionais originadas da linha clonada. "Só paguei quando me certifiquei de que o valor estava correto." No entanto, no mês seguinte, ele recebeu a cobrança de multa e juros por atraso. "Liguei novamente, reclamei e foi feito o abatimento. Foi um processo muito desgastante, cheguei até a ser mal atendido." Consumidora não sabia de clonagemMas a situação vivida por Braghiroli não foi mais desgastante do que a da supervisora comercial Gesele Araújo, que chegou a receber sete faturas diferentes, mais duas listagens com o detalhamento das ligações, para finalmente ter seu impasse com a Telesp Celular resolvido. Diferentemente dos outros dois casos, ela não foi comunicada pela operadora de que a linha estava clonada. "Meu telefone ficou uma semana bloqueado para fazer ligações. Pensei que fosse problema do aparelho. Só quando recebi a conta e vi várias ligações que não tinha feito, reclamei e soube do problema." Ela optou por trocar de aparelho e foi informada de que em cinco dias receberia nova fatura. "Muito tempo depois, chegou a segunda cobrança, que paguei, mas, enquanto aguardava, recebi vários telefonemas da Telesp Celular cobrando pelo atraso." Pouco tempo depois, Gesele recebeu nova fatura, cobrando multa, juros, a troca do aparelho e roaming. Recebeu uma quarta conta, debitando o valor que tinha pago, mas cobrando novamente valores irregulares. Ela não percebeu e pagou a fatura. Enfim, desde a clonagem até a normalização do serviço, foram quase três meses e sete faturas. "Ainda assim, na última conta me cobraram o serviço de Waaap e Torpedo, que nunca usei." Como o valor era baixo, Gesele pagou e não reclamou. "Sou pós-graduada em marketing e estudei muito a importância da qualidade do serviço. Acho um absurdo o descaso da empresa com o cliente. Os atendentes são despreparados e nós, as vítimas, não temos um respaldo." Resposta da Telesp CelularA Assessoria de Imprensa da Telesp Celular informa que o cliente não arca com nenhum custo adicional quando ocorre a clonagem. A operadora oferece como opção, nesses casos, a troca do aparelho ou a da linha. Com relação ao caso de Magni, a operadora informa que a fatura de julho ainda está em aberto. A situação de Braghiroli já está normalizada, assim como a de Gesele. A nota informa que, a cada ajuste efetuado, a operadora envia uma segunda via corrigida, o que pode resultar no envio de várias contas para o cliente. Sônia Cristina Amaro, assistente de Direção do Procon-SP, órgão de defesa do consumidor ligado ao governo estadual, diz que o cliente ao perceber que teve a linha clonada deve entrar em contato com a operadora imediatamente e solicitar o cancelamento da cobrança. "Enquanto o problema estiver sendo apurado, não pode ser aplicada nenhuma penalidade ao consumidor." Ou seja, ele não pode ter o celular cortado, nem deve pagar multas e juros por atraso. O advogado Marcos Diegues, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), destaca que o consumidor que tiver prejuízo terá direito à indenização. "Se não houver acordo com a empresa, o interessado deverá recorrer à Justiça." E vale uma dica: muitos celulares são clonados quando estão nas imediações de aeroportos. Portanto, quando chegar de viagem, vale esperar alguns minutos e só ligar o aparelho depois que tiver afastado do local. Caso a opção seja a Justiça, vale lembrar que nas ações cujo valor da causa não ultrapasse 40 salários mínimos (R$ 8 mil), há o benefício do Juizado Especial Cível. Até 20 salários (R$ 4 mil), a presença do advogado fica dispensada. Acima desses valores, o processo é encaminhado à Justiça comum.

Agencia Estado,

22 de julho de 2002 | 15h55

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