Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Marcha acelerada

O crédito é o combustível da atividade econômica. Está em franca expansão: cresceu 1,3% em junho (sobre maio) e 21,4% em 12 meses terminados em junho, conforme mostrou ontem o Banco Central.Esse avanço não é inchaço, como ocorreu no passado. É manifestação de transformação estrutural na área financeira. Enquanto o setor público engoliu poupança interna para cobrir seu rombo, não houve espaço para o avanço do crédito. A partir de 1999, o governo federal se comprometeu a fazer um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) e, com isso, o passivo público foi perdendo proporção em relação à renda nacional. Chegou a ser de mais de 60% do PIB (em 2002) e hoje está a 44%. Foi o que abriu espaço para o financiamento do consumo.Ainda há um campo enorme para expansão. A tabela mostra como o setor é acanhado no Brasil quando comparado com outros cinco países.O crédito é um dos canais por meio do qual o Banco Central opera a política de juros. Expansão do crédito significa, em princípio, mais consumo e maior probabilidade de aumento da inflação. Quando quer derrubar a inflação, o Banco Central estreita o crédito. Isso significa que a aceleração do crédito tende a reduzir a velocidade da queda dos juros.Enquanto teve baixa participação na economia, o crédito pouco atuou como canal de transmissão da política de juros e o Banco Central não se preocupou com ele. Mas, como está aumentando de importância, o crédito passou a ser acompanhado com mais atenção. Por enquanto, o Banco Central vem considerando bem-vinda a mudança estrutural no crédito e, aparentemente, não pretende contê-lo, mesmo quando os preços ameaçarem comprometer a meta de inflação.Mas ninguém se iluda, pois isso tem custo. Quanto maior a expansão do crédito, maior a tendência do Banco Central a puxar o freio dos juros para compensar o efeito expansionista do crédito.Outro aspecto de preocupação recorrente é a enorme lentidão com que caem os juros na ponta do financiamento.Operações no desconto de duplicatas, por exemplo, saíam a juros de 48,4% ao ano em dezembro e caíram só para 43,3%, em junho. Os juros do cheque especial continuam enormes; baixaram no período de 142,0% para 139,7% ao ano. E os de crédito pessoal, de 57,2% para 52,3% ao ano.A lentidão dessa queda tem atenuante. Os melhores devedores estão recorrendo a outras fontes de financiamento, especialmente ao mercado de capitais ou aos emprestadores externos. Isso significa que as carteiras de crédito dos bancos correm mais risco e, nessas condições, os juros vêm caindo mais devagar.O Brasil continua entre os campeões mundiais no custo do crédito, algo que pouco tem a ver com a redução dos juros básicos (Selic). Tem a ver com os custos operacionais ainda altos do sistema financeiro, com o alto nível de impostos cobrados na intermediação financeira e com o spread elevado dos bancos.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

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