Karsten Moran/New York Times
Karsten Moran/New York Times

Maré de azar

Meca dos cassinos, Boardwalk, nos Estados Unidos, está à beira de um colapso financeiro e busca saída para crise

The Economist

11 de abril de 2016 | 03h00

Na versão americana de Monopoly, o Boardwalk, um calçadão de madeira que se estende ao longo da orla de Atlantic City, é a via pública mais cara do tabuleiro. Nos dias que correm, porém, ninguém quer saber de comprar coisa alguma em Atlantic City, nem mesmo no Boardwalk. Incorporadoras esperam por tempos melhores para iniciar um novo empreendimento no terreno que antes abrigava o Playboy Hotel and Casino.

Talvez demore um pouco: a cidade, que nos anos 1920 era conhecida como “O Playground do Mundo”, corre sério risco de ir à falência. Em 21 de março, o prefeito Don Guardian anunciou que não teria como pagar os salários de policiais, bombeiros e outros funcionários que atuam em serviços essenciais. Os vereadores da cidade encontraram uma solução para contornar temporariamente o problema, mas tudo indica que até meados de maio, Atlantic City ficará sem dinheiro para honrar seus compromissos.

Graças a uma supervisão agressiva das contas de suas prefeituras, Nova Jersey não é palco de calotes ou falências municipais há quase 80 anos. Acontece que em nenhuma outra cidade as coisas deram tão errado em tão curto período de tempo como em Atlantic City. Em 2014, quatro de seus 12 cassinos fecharam as portas, e a arrecadação gerada pelo segmento de jogos de azar, item importante das receitas estaduais, despencou. A cidade, que já tinha um taxa de desemprego alta, perdeu quase 8 mil postos de trabalho. As pessoas continuam jogando, mas já não o fazem só em Nova Jersey. Quando Estados vizinhos afrouxaram a legislação do jogo, Atlantic City perdeu seu monopólio.

Crise imobiliária. A principal fonte de arrecadação da cidade são os impostos sobre a propriedade territorial. As imobiliárias não têm vendido nada, mas se dedicam com afinco a recalcular o valor dos imóveis. O estoque de propriedades tributáveis sofreu desvalorização de 64%, passando de US$ 20,5 bilhões, em 2010, para US$ 7,3 bilhões em 2015. A prefeitura deve restituições de imposto a vários cassinos: só ao Borgata são US$ 170 milhões. O desemprego está em 7,7%, bem acima dos índices estadual e nacional. Com uma população de 40 mil habitantes, a cidade registrou um déficit orçamentário de US$ 120 milhões no ano passado, ou US$ 3 mil por pessoa. Um em cada três moradores vive abaixo da linha da pobreza.

O governador de Nova Jersey, Chris Christie, fez da recuperação de Atlantic City um projeto recorrente. Poucas semanas depois de tomar posse, o republicano formou uma comissão para cuidar da indústria de jogos de azar. Em 2011, instituiu um distrito turístico na cidade, com supervisão estadual. Também aprovou a concessão de vários empréstimos e organizou um sem-fim de reuniões de trabalho. No início de 2015, nomeou um comitê de gestão emergencial. Mas, apesar de o prefeito ter aceito as recomendações do grupo, incluindo a demissão de servidores, o governador por duas vezes vetou a concessão de um pacote de ajuda. Agora Christie diz que não destinará mais recursos para a cidade enquanto ela não estiver sob intervenção do Estado.

Lados opostos. Guardian, que também é republicano, e o presidente da Assembleia Legislativa de Nova Jersey, o democrata Vincent Prieto, rejeitam a solução, que daria ao governo estadual poderes para romper acordos coletivos de trabalho, entre outras coisas. No dia 4 de abril, a situação se agravou ainda mais: Christie entrou na Justiça para garantir a destinação de US$ 34 milhões em impostos recolhidos por Atlantic City às escolas da rede municipal de ensino. No mesmo dia, a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou a nota da cidade, que já estava em nível especulativo, a fim de refletir a maior probabilidade de um calote este ano. Em novembro, Nova Jersey realizará um referendo para decidir se autoriza a abertura de cassinos na região norte do Estado, perto da cidade de Nova York. Se a proposta for aprovada, Atlantic City acumulará mais prejuízos.

Mas nem tudo está perdido. Há, no horizonte, motivos para otimismo. O faturamento dos oito cassinos restantes vem aumentando nos últimos tempos. A cidade, que por tantos anos dependeu exclusivamente da indústria do jogo, começa a diversificar suas apostas. Um novo centro de conferências está com a agenda lotada até 2019. A Universidade Stockton pretende inaugurar um novo campus na cidade. O charme do Boardwalk, que se estende à beira de uma praia de areia branca e fina, continua intacto. Talvez Bruce Springsteen, o mais famoso poeta de Nova Jersey, estivesse certo quando disse de Atlantic City que tudo que morre, um dia se recupera.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM. 

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