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Guy Perelmuter
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Marilyn, Kennedy e os drones

Mais uma tecnologia desenvolvida com propósitos militares chega ao cotidiano do campo e das cidades

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2018 | 05h05

A exemplo da própria Internet, os drones são o resultado de inovações desenvolvidas pelos militares ao longo de mais de cem anos. Um drone é um veículo aéreo não-tripulado (ou UAV - unmanned aerial vehicle) que pode voar de forma autônoma ou pode ser controlado remotamente. Entretanto, o primeiro uso da ideia em um campo de batalha não foi exatamente "controlado". Em março de 1848, uma revolta na cidade de Veneza contra o domínio austríaco deu origem à República de San Marco. Para sufocar a revolta, o exército austríaco cercou a cidade e carregou balões com explosivos que foram lançados sobre a cidade - dependendo da direção do vento.

Cinquenta anos depois, em 1898, Nikola Tesla, o inventor, engenheiro e futurista nascido no que é hoje a Croácia, apresentou um pequeno barco pilotado por controle remoto durante a "Exibição Elétrica" no Madison Square Garden em Nova Iorque - algo que foi considerado por muitos como um "truque de mágica" e não ciência. Mas o uso de ondas eletromagnéticas para controlar veículos à distância prosseguiu seu desenvolvimento, principalmente com objetivos bélicos. O engenheiro e inventor inglês Archibald Low - que estabeleceu os princípios do que viria se tornar a televisão - é considerado por muitos uma das figuras mais importantes no universo dos drones, por ter estabelecido os princípios básicos de tecnologia de controle remoto de aeronaves. 

Os primeiros UAVs foram construídos durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) com sucesso limitado, e foram amadurecidos durante duas décadas até serem utilizados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Foi em uma das fábricas de drones para treinamento dos operadores de baterias antiaéreas um fotógrafo do exército chamado David Conover viu uma jovem operária chamada Norma Jeane, que iniciou então uma carreira como modelo e mudou seu nome para Marilyn Monroe.

O uso dos drones como armas de ataque pelo exército norte-americano neste período tipicamente envolvia um piloto, em função do estágio ainda limitado das técnicas de controle remoto. O piloto em questão decolava com a aeronave e uma vez que atingia a altitude e a direção corretas, saltava de paraquedas em território aliado. Joseph Kennedy, irmão mais velho do futuro presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, era um dos pilotos destes "drones" e morreu em uma explosão ocorrida prematuramente. O alvo deste ataque era exatamente o local onde cientistas alemães trabalhavam no seu projeto de mísseis, e diversos deles foram levados para fazer parte do programa balístico norte-americano nos anos subsequentes. 

Os significativos avanços obtidos no desenvolvimento de mísseis reduziram consideravelmente os recursos e interesse em drones, mas as melhorias obtidas na tecnologia e na miniaturização dos circuitos aliadas às necessidades das guerras ligadas ao terrorismo - nas quais elementos de interesse se escondem em regiões por vezes inóspitas e por vezes em aglomerações urbanas - elevaram os drones a uma posição de destaque. Atualmente os drones se beneficiam das patentes depositadas em 1940 por Edward Sorensen, na qual o operador (ou piloto) tem informações precisas sobre o que está ocorrendo com o UAV a cada instante. Seu uso no arsenal militar moderno foi acelerado na década de 80 através de um empreendedor chamado Abraham Karem, que fundou a empresa Leading Systems em sua garagem na cidade de Los Angeles e, utilizando materiais simples, conseguiu provar a capacidade e durabilidade de veículos não-tripulados para missões de reconhecimento. A agência de pesquisas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, DARPA, financiou o trabalho desta startup de onde surgiram os projetos dos drones modernos, que realizam missões diariamente em diversas regiões do mundo.

Mas como grande parte das tecnologias criadas com objetivos militares, a popularização e a acessibilidade econômica levaram os drones a ampliarem suas áreas de atuação. Como isso aconteceu e qual seu papel no futuro dos negócios é o nosso tema para semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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