Marina Silva e as ideologias ambientalistas

Parece que a saída da ministra Marina Silva do governo tem muito a ver com a sua falta de pragmatismo na condução dos programas e projetos relacionados com o meio ambiente. Cobrava-se dela uma atitude pragmática que pretende partir imediatamente para ações concretas, sem as delongas usuais dos planejadores.Dizer que ganhamos em eficiência administrativa e em eficácia organizacional quando somos pragmáticos em nossas decisões é, contudo, uma forma de camuflar a natureza dos problemas que enfrentamos. Ser pragmático significa "adotar como critério da verdade a utilidade prática, identificando o verdadeiro como útil". Mas, desde que existam conflitos de interesses e de valores entre grupos e classes sociais, regiões ou setores produtivos nas questões colocadas às políticas públicas, cabe a pergunta: útil para quem? Neste sentido, o pragmatismo passa a ser uma dúvida e não um caminho alternativo para a solução dos problemas.Assim ocorre nas questões que envolvem o meio ambiente. Elas não podem ser equacionadas por conta apenas de decisões tomadas descentralizadamente pelos mercados, uma vez que o futuro não está adequadamente representado nesses mercados - pelo menos o futuro mais distante. Como diz Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, o Estado deve servir como gestor dos interesses das futuras gerações, por meio de políticas públicas que utilizem mecanismos regulatórios ou de mercado, adaptando a estrutura de incentivos a fim de proteger o meio ambiente global e a base de recursos para as pessoas que ainda vão nascer.As decisões sobre as formas de se utilizarem, sustentavelmente, os recursos naturais de uma região não podem ser tomadas sem que haja uma valoração econômica desses recursos, pois esses apresentam muitas opções alternativas para o desenvolvimento regional. Eles podem ser preservados, ou seja, nenhum uso humano é permitido na sua exploração. Eles podem ser conservados, ou seja, a ação antrópica pode ocorrer para geração de emprego ou redução da pobreza, desde que sejam mantidos os serviços e a qualidade dos recursos naturais ao longo do tempo.Na verdade, a agenda das políticas ambientais é carregada de conflitos de interesses intergeracionais entre a aceleração do crescimento econômico e a capacidade regenerativa e assimilativa dos ecossistemas. Esses conflitos se manifestam no nível das burocracias governamentais que, de uma forma ou de outra, acabam representando interesses setoriais, regionais ou classistas. No fundo, é possível identificar, nessas burocracias, ideologias ambientalistas que se movem em direções opostas. Podem-se distinguir, didaticamente, dois campos amplos de ideologias no ambientalismo, distribuídos quanto ao seu comprometimento com os níveis de sustentabilidade. De um lado, os partidários do tecnocentrismo extremo consideram, como objetivo principal da economia, a maximização do crescimento econômico, medido pela taxa de expansão do PIB per capita. Pressupõem que as forças desacorrentadas dos mercados, em conjunção com o progresso tecnológico, garantirão infinitas possibilidades de substituição capazes de mitigar todas as restrições de escassez dos recursos naturais e de compensar as fontes e as perdas ambientais. Todas as espécies não humanas são avaliadas apenas instrumentalmente, de acordo com sua capacidade de satisfazer as necessidades humanas; o seu valor intrínseco é considerado nulo. De outro lado, os partidários do ecocentrismo extremo são adeptos da bioética que confere direitos morais e interesses também a todas as espécies não humanas, inclusive às partes abióticas do meio ambiente, atribuindo valor intrínseco à natureza, ou seja, que tem o seu próprio valor independentemente da experiência humana.Quando surge um programa ou projeto específico que envolve o choque de interesses entre as burocracias, como nas hidrelétricas do Rio Madeira, é preciso que, por meio de pacientes processos de negociações e de compensações, se chegue a posições convergentes e consensualizadas, evitando-se a prática de métodos soviéticos no processo decisório e, ao mesmo tempo, ações avassaladoras sobre o que a natureza levou milênios para sedimentar. E é exatamente na gestão desses processos que a ministra Marina Silva demonstrou, com legitimidade política, grande maestria e a percepção do que realmente vale para a história do povo brasileiro e não apenas para um mandato presidencial.*Paulo Haddad, professor do Ibmec/MG, foi ministro do Planejamento e da Fazenda no governo Itamar Franco

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