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Matando o futuro

Estudo mostra que o número de mortes violentas de crianças e jovens de até 19 anos no Brasil passou de 5 mil, em 1990, para cerca de 11 mil, em 2015

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2018 | 05h00

Estudo recente da Fundação Abrinq revela dados preocupantes sobre o aumento da violência no Brasil. O estudo, bastante detalhado e baseado em dados coletados nos Ministérios da Saúde, da Justiça, Cidades e IBGE, mostra que o número de mortes violentas de crianças e jovens de até 19 anos passou de 5 mil, em 1990, para cerca de 11 mil, em 2015 (último dado disponível). Ou seja, levando em conta os dados totais de mortes violentas, a cada 6 homicídios, 1 foi de um jovem brasileiro com até 19 anos. São 30 menores assassinados por dia. Para mortes nessa faixa etária (considerando as mortes violentas por 100 mil habitantes), os Estados mais violentos são Alagoas e Espírito Santo, e os com menores índices são Santa Catarina e São Paulo.

Como o Brasil é signatário, junto com 193 países, da Agenda 2030 das Nações Unidas, o estudo constata que, em vez de decrescer, como estabelece a meta da agenda, o número de homicídios em geral vem crescendo ano a ano, e o número dos cometidos contra crianças e adolescentes cresce mais aceleradamente.

Levantamentos de entidades internacionais mostram que o Brasil caminha na contramão das metas da ONU. Segundo dados do estudo, entre 2001 e 2015 786 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Esse número impressiona, pois é equivalente a uma vez e meia a população de Lisboa. De forma mais clara, é mais que a soma dos assassinatos em oito países da América do Sul e mais que os homicídios nos 28 países da União Europeia. Neste quesito ganha-se, inclusive, do número de vítimas fatais da guerra da Síria.

Se somarmos a este quadro tenebroso o desemprego que assola o País e atinge pesadamente os jovens, o futuro fica ainda mais incerto. A violência e a falta de ocupação lhes tiram perspectivas de uma vida melhor e conduzem à marginalidade e à fuga da realidade pelas drogas. Gera-se um círculo vicioso de fracassos e mais violência. Ocorre que os jovens, em qualquer nação civilizada, são o patrimônio humano mais valioso, e por isso são protegidos e estimulados a desenvolver seus talentos e aptidões. É só pensar que grande parte da criação artística (das artes visuais à música) e da inovação tecnológica (de softwares e aplicativos aos equipamentos) é feita por jovens, com estímulos públicos e privados ao seu talento e ousadia.

Os dados da Abrinq mostram como o Brasil está matando, literal e metaforicamente, o seu futuro. É incalculável a perda econômica, social e cultural que o País tem com estas mortes prematuras. Se somadas às mortes em acidentes de trânsito, que atingem maciçamente jovens de 18 a 25 anos, as perdas são ainda mais preocupantes para o futuro. Tal descaso com a juventude é uma das marcas profundas de um país desigual, sem rumo e que há séculos forma um caldo de cultura de violência permanente.

O problema maior é que, entra governo e sai governo (de esquerda, de direita ou do Ordinário, marche!), os jovens não são vistos como cidadãos com direitos e obrigações, mas como massa de manobra de um populismo rastaquera que está entranhado na cultura política do País. O ensino é de quinta categoria, a cultura é entretenimento vulgar e as faculdades não são centros de excelência e conhecimento, mas locais de lazer, debate político indigente e, principalmente, greves.

O mundo de hoje é o do conhecimento, da informação, da inovação, dos avanços tecnológicos e das mudanças rápidas nas cadeias de produção e consumo. É também o mundo da difusão da cultura, da arte e da ampla e constante troca de ideias e opiniões. É um mundo que favorece cada vez mais os jovens, na sua inquietação e ousadia de criar. Mas, como expressivos segmentos de sua elite política, empresarial e intelectual são despreparados e ancorados teimosamente no século 18, o Brasil está matando os seus jovens ou transformando-os em zumbis iletrados e boçais. Para a sociedade, a economia e a cultura o custo a ser pago já está sendo alto demais.

*ECONOMISTA, CONSULTOR DE ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS, É COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS URBANOS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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