Marcelo Min/Estadão
Atualmente, 68% da matriz elétrica brasileira é hídrica Marcelo Min/Estadão

Matriz elétrica do Brasil ainda depende de volume de chuvas

Em 2001, 90% da energia vinha de hidrelétricas, porcentual que hoje é de 68%; dependência do clima, porém, segue alta

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2021 | 23h59

O aumento do risco de racionamento de energia neste ano tem origem semelhante à da crise de 2001, quando o País foi obrigado a reduzir o consumo de eletricidade. Naquela época, o nível de chuvas foi insuficiente para encher os reservatórios e garantir a passagem tranquila pelo período seco, que vai do fim de abril até outubro. Desta vez, a situação é parecida. As chuvas foram fracas, e os reservatórios estão vazios. A diferença é que hoje a matriz elétrica é mais diversificada, com novas fontes de energia.

Em 2001, quase 90% da matriz elétrica era hídrica e o restante térmica e nuclear. Hoje, esse porcentual caiu para cerca de 68%, e novas fontes ganharam importância na produção nacional, como a eólica, biomassa, solar e térmicas a gás. Ainda assim, a crise atual é um retrato de que a dependência dos reservatórios – e das chuvas – ainda é grande.

“A piora na hidrologia já foi apontada em outubro do ano passado e se aprofundou. Isso tem a ver com as mudanças climáticas”, diz a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum. Segundo ela, desde 2013, a hidrologia vem caindo sensivelmente, sobretudo na área dos grandes reservatórios. Hoje, ao contrário do último racionamento, as soluções para o problema são diferentes. As eólicas, por exemplo, poderão chegar a 18% no pico de geração – isso significa segurar água nos reservatórios.

O professor da UFRJ Nivalde de Castro, coordenador geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), não acredita em apagão neste ano. Mas ele destaca que essa premissa segue duas variantes: o comportamento da demanda nos próximos meses e a entrada em operação de novas plantas – há expectativa de cerca de 10 mil MW de eólicas e térmicas. “De qualquer forma, as tarifas vão subir, pressionando a inflação porque todo o parque de termoelétricas terá de ser despachado continuamente.”

Base antiga

Segundo o presidente da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Paulo Pedrosa, o problema é que o setor elétrico é intrinsecamente ineficiente. A base envelheceu. “O preço do sistema está em R$ 250 o MWh (valor do mercado à vista) e estamos chamando térmicas de R$ 1,5 mil.” Além disso, muita gente usa o sistema e não paga, como a geração distribuída que não tem o custo da tarifa fio.  

“Há vários modelos que exportam custos e geram ineficiência. O sistema precisa ser modernizado.” Segundo ele, tudo mudou – a tecnologia, o clima e a participação do consumidor –, mas o sistema continua a socializar custos. Para ele, é necessário valorizar os atributos de cada fonte, sem subsídios. 

Pedrosa se refere aos chamados jabutis incluídos na MP de privatização da Eletrobrás, que prevê a prorrogação do Proinfa – programa de incentivo às fontes alternativas criado em 2002, quando eólica e solar praticamente não existiam. De lá para cá, as fontes ganharam competitividade com o barateamento dos equipamentos e redução do preço da energia – o que não justificaria mais subsídios para o desenvolvimento das usinas.

Para o presidente da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini, a expansão das térmicas a gás, prevista para os próximos anos, deverá reduzir o risco do sistema elétrica. Isso porque as usinas operam na base – ou seja, o tempo todo, ao contrário das eólicas e solares que dependem das condições climáticas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Empresas criam plano para reduzir consumo de água

Grandes consumidores querem reduzir pressão do sistema em horários de pico

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2021 | 23h59

De olho na deterioração do nível dos reservatórios das hidrelétricas e possíveis problemas de abastecimento nos próximos meses, os grandes consumidores de energia elétrica decidiram criar um programa de racionalização para evitar o colapso do sistema. A ideia surgiu após reunião com o Ministério de Minas e Energia, ocorrida no meio do feriado de Corpus Christi, para apresentar o cenário atual e pedir ajuda aos executivos do setor.

Depois da experiência do racionamento de 2001, que afetou o Produto Interno Bruto (PIB) do País e interrompeu a produção de várias empresas, o setor produtivo não quer ser surpreendido com cortes obrigatórios. O plano que vem sendo desenhado prevê medidas para aliviar o sistema nos horários de pico, normalmente entre 18h e 21h. A preocupação maior hoje é com aumento de apagões nesses períodos, quando a carga sobe e pressiona o sistema elétrico.

Por isso, uma das propostas em estudo é o deslocamento da produção para outros períodos, fora dessa faixa. Outra medida seria o acionamento de geradores a diesel no horário de ponta para desafogar o sistema. Desde o racionamento de 2001, muitas empresas adquiriram esses equipamentos para se precaver. Para as empresas que podem migrar de eletricidade para o gás, uma alternativa seria usar caldeiras a gás em vez de elétricas.

Medida voluntária

O presidente da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Paulo Pedrosa, que participou da reunião com o Ministério, explica que a adoção das medidas é voluntária e exige, muitas vezes, soluções específicas para cada empresa. Algumas companhias têm produção constante e a interrupção poderia provocar prejuízos milionários, diz o executivo. Outras podem até deslocar produção entre fábricas localizadas em regiões diferentes.

“Estamos conversando com os associados e vendo o que dá para fazer de forma simplificada. Esse é um trabalho que tem de ser feito por empresa.” O objetivo, diz Pedrosa, é evitar que térmicas de R$ 1,5 mil o megawatt/hora (MWh) sejam despachadas, elevando o custo de todo o sistema. Hoje, ao contrário de 2001, há recursos que podem ser adotados previamente para evitar problemas maiores, afirma ele. 

Na conversa inicial com o Ministério, a ideia era começar a adotar essas medidas a partir de julho ou agosto. O presidente da Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia (Abiape), Mário Menel, que também participou da reunião e acompanha a elaboração de um programa de racionalização, afirma que o marco regulatório já permite a adoção desses instrumentos. O que precisa é detalhar alguns pontos.

“As medidas serão necessárias por quanto tempo? Como será comprovado que uma empresa reduziu o consumo em determinado horário? Como seria a compensação na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE)?”, questiona Menel. Ele diz que já houve uma experiência no Nordeste, mas que, na ocasião, foi prejudicada pela inadimplência na CCEE.

A Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) também iniciou trabalho com propostas de racionalização para apresentar ao governo. Segundo o presidente Venilton Tadini, o sistema elétrico hoje, mais diversificado, permite o uso de vários dispositivos para amenizar os efeitos da crise, decorrente da pior crise hidrológica dos últimos 91 anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.