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Paul Yeung/Bloomberg
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Maus agouros

A taxa de câmbio serve fundamentalmente para humilhar os economistas, sempre incapazes de prever sua trajetória

Luís Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2021 | 23h59

A taxa de câmbio, como se sabe, serve fundamentalmente para humilhar os economistas, sempre incapazes de prever sua trajetória – fracasso do qual não resulta, paradoxalmente, nenhuma modéstia. Ninguém foi capaz de prever a expressiva desvalorização do dólar em 2021.

Adivinhar o futuro é uma das profissões mais antigas do mundo, rivalizando com outra mais famosa. Desde que o homem existe, alguém chama a si a responsabilidade de ver o que o futuro esconde, seja examinando as entranhas de um animal, seja interpretando as cartas de um baralho. Os economistas preferem modelos matemáticos, com grau de sucesso não muito diferente dos outros métodos. 

O mercado começou o ano com previsão de R$ 5,00 para o dólar no final de 2021. A estimativa continuou nesse patamar até o final de fevereiro quando, puxada pelo mercado à vista que já estava em R$ 5,50, subiu cautelosamente para R$ 5,10. Quando o dólar começou a cair, a partir de abril, as previsões, sempre atrasadas, continuaram a subir até alcançar R$ 5,40, onde estacionaram até o início de maio. Como a cotação continuou a cair, a previsão para o fim do ano voltou para R$ 5,10. Não há grande convicção naquilo que os modelos nos contam e quem comanda o futuro é mesmo o presente, na dúbia expectativa de que nada de excepcional aconteça. Em grande parte, a variação do real anda em linha com a moeda de outros países emergentes.

Modelo econométrico baseado nas cotações diárias dos últimos dez anos das moedas do Chile, Colômbia, Índia, Rússia e Turquia é capaz de explicar 95,4% das variações diárias da moeda brasileira – mais do que é explicado pelo diferencial de juros ou pelo preço das commodities. Em grande parte, o real acompanha o apetite de risco dos grandes “traders” internacionais que, ao tentarem se antecipar, uns aos outros acabam por criar um comportamento de manada. Nesse aspecto, a moeda brasileira não difere muito das outras.

O que nos torna especiais, como mostra Pedro Rossi em A Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil (2016), é a enorme liquidez da moeda brasileira no mercado futuro, inclusive offshore, o que nos torna uma espécie de playground dos grandes especuladores internacionais, sob o olhar obsequioso do Banco Central. Atarantados com tanta oscilação, os economistas tentam antever os próximos lances da partida. As previsões só não são mais díspares porque, no linguajar do recente livro de Daniel Kahnemann (Noise, em coautoria com O. Sibony e C. Sunstein), há mais viés do que ruído, já que a previsão de cada economista é conhecida por todos e os palpites tendem a se agrupar em torno de um valor médio (é melhor errar com os outros do que tentar acertar sozinho e errar). Decisões judiciais, em contraponto, tendem a ter mais ruído que viés, dada a enorme disparidade de sentenças que juízes diferentes podem atribuir para casos idênticos, como mostra o livro. 

Seja como for, o que as pitonisas dos modelos quantitativos hoje nos dizem é que o dólar está barato quando comparado com outras moedas. A turbulência política também poderá ajudar a empurrar para cima de novo a taxa de câmbio. De um lado, o governo continua a insistir nas suas obtusas patuscadas. Por outro, a direita democrática percebe gradualmente que o impeachment é condição precedente para que se viabilize um candidato que vença o PT em 2022.

Na economia, a recuperação cíclica que se esboça não será suficiente para aplacar o desemprego, que continuará subindo. A retomada do setor de serviços, no rastro da vacinação, poderá pressionar a inflação. Se o dólar é o preço do medo, temos muito a temer pela frente. Um futuro de incertezas é fácil de ser previsto. Até pelos economistas. 

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E FGV-SP. E-MAIL : LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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