Maus presságios impõem mudanças

Os graves desequilíbrios de curto prazo impõem à presidente Dilma uma mudança de rumo. Manter os pressupostos da sua "nova matriz econômica", por certo, levaria a economia a resultados ainda piores em 2015. Assim, delineia-se um desvio - que poderá ser mais ou menos radical - na condução da política econômica, por meio de rigoroso ajuste fiscal. Um objetivo seria expandir o superávit primário total (União, Estados e municípios) para algo como 1,2% do PIB, ante o alcançado em 2014, de só 0,2%.

Josef Barat, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2015 | 02h03

Sabe-se que o superávit de 2014 foi insuficiente para pagar os juros da dívida pública (estimados em R$ 280 bilhões) e a proporção dívida/PIB voltou a crescer. A meta fiscal para 2015 é bem modesta, pois, se alcançada, será menor que o superávit de 1,6% de 2013, mas reverte a trajetória de aumento da relação dívida/PIB para 2016.

O governo justifica o grave problema fiscal pelo fraco crescimento econômico, que afetou a arrecadação. Mas o fato é que as despesas cresceram descontroladamente, em ritmo maior que o PIB. É de esperar que, no ajuste, predomine o aumento da receita, como sempre por meio de mais impostos, como a Cide sobre combustíveis, o IPI para veículos, o IOF sobre crédito pessoal, além de cortes de subsídios e desonerações tributárias. São certos os reajustes de preços de energia e de combustíveis, e não é fora de propósito esperar cortes em gastos sociais.

Do ponto de vista da infraestrutura, a questão crucial é que os investimentos públicos - que já são extremamente baixos - acabem também por sofrer cortes mais drásticos, num momento de grande dificuldade para atrair investimentos externos. Outra questão preocupante é a necessidade de recomposição das tarifas de serviços públicos e preços de insumos, que distorceram os preços relativos. O realinhamento pela maior liberdade na sua recomposição imporá, sem dúvida, pressões sobre os índices de preços.

O quadro internacional, por sua vez, poderá ser extremamente desfavorável para a economia brasileira em 2015. O que se vislumbra é uma conjunção negativa de fatores: queda dos preços das commodities; desaceleração da economia chinesa; baixo crescimento da Europa e do Japão; e recuperação da economia americana, com o fortalecimento do dólar e aumento dos seus juros básicos. Some-se a esse conjunto o acelerado descrédito do Brasil no cenário mundial, tanto pela ameaça de ser rebaixado na avaliação de risco quanto pela sucessão de escândalos na maior empresa do País e as decorrentes investigações que já estão sendo feitas no exterior. Uma crise na Rússia tornará realidade a fantasia recorrente de culpar o ambiente internacional pelos fracassos domésticos.

Por fim, como reagirão os indicadores de confiança às propostas da nova equipe econômica? Como será restaurado o otimismo e avaliada a credibilidade dos esforços de mudança? Não se pode esquecer de que o não cumprimento da meta de superávit fiscal primário foi motivo de forte desgaste para o Executivo e exigiu acertos políticos com o Congresso. O segundo governo Dilma começa enfraquecido politicamente diante de um Congresso renovado, em parte mais oposicionista e crítico, mas, em parte, com maior avidez por compensações políticas.

Por fim, e não menos importante, um complicador a mais: o ambiente econômico estará mais vulnerável em razão da grave crise na oferta de recursos hídricos. Sem o restabelecimento da normalidade das chuvas, virão o racionamento de energia elétrica e perdas maiores na agricultura. Esse é um problema da maior gravidade para o País, uma vez que, de modo geral, estão baixíssimos os níveis dos reservatórios, tanto para a geração de energia quanto para o abastecimento de água. No caso do suprimento de hidreletricidade, o acionamento mais permanente das termoelétricas é um fator adicional de agravamento do desequilíbrio financeiro do setor elétrico e de aumento de custos para a indústria. Veremos se Deus é realmente brasileiro e, se for, se já não mudou para Miami...

ECONOMISTA, CONSULTOR DE ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS, É COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS URBANOS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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