Maus tratos aos animais será a nova barreira à carne brasileira

Especialista cria 'máquina do abraço e de compressão' para reduzir o estresse do gado

Andrea Vialli, de O Estado de S. Paulo,

12 de dezembro de 2007 | 21h38

Preocupados com as restrições à carne brasileira na Europa, frigoríficos brasileiros começam a adotar meios para evitar maus tratos aos animais de corte. Isso porque a questão pode se tornar uma nova barreira nos países desenvolvidos. "Evitar os maus tratos durante a criação e abate dos animais traz ganhos econômicos e éticos aos produtores", explica Temple Grandin, doutora em ciência animal pela Universidade do Colorado e considerada a maior especialista mundial em bem-estar animal. Pressionados por consumidores e entidades de defesa dos animais, grandes empresas, como a cadeia de fast-food McDonald’s e os varejistas europeus Carrefour e Tesco estão exigindo o selo de ‘bem-estar animal’ na carne comprada.  No Brasil, os frigoríficos Marfrig e Bertin já possuem áreas estruturadas de bem-estar animal há quatro anos. Os técnicos percorrem fazendas e frigoríficos para aplicar um sistema de auditorias de bem-estar, desenvolvido por Temple, onde são verificados itens como o uso de choque elétrico para conduzir o gado, quedas e lesões, e eficiência no abate - se animal é morto logo na primeira tentativa. Temple veio ao Brasil justamente para ensinar boas práticas aos produtores e frigoríficos locais. O convite veio da Braslo, empresa de alimentos que atualmente é a principal fornecedora de produtos de carne para as redes McDonald’s e Outback. Por exigência das cadeias de fast-food, desde 1999 a Braslo passou a exigir esse comprometimento dos fornecedores e ajudou a propagar o movimento no Brasil. Grupos varejistas como Carrefour e Pão de Açúcar também começam a pressionar os fornecedores para que estejam atentos à questão.  Qualidade Além de evitar o sofrimento dos animais, o movimento tem razões práticas. Ao sofrer maus tratos no processo de criação e abate, o gado libera toxinas que alteram o PH (índice de acidez que vai de zero a sete) da carne. Quanto mais alto o PH, pior a qualidade da carne. "Via de regra, a carne com PH acima de 6 não entra no mercado europeu. É considerada mais rígida e de qualidade inferior", explica Waldemar Gomes Silva, gerente de qualidade do frigorífico Bertin, que exporta 90% de sua produção de carne bovina. Segundo ele, é fácil perceber quando o animal sofreu maus tratos. "A carne tende a ter uma coloração mais escura e há lesões." Stravos Tseimazides, coordenador do setor de bem-estar animal do frigorífico Marfrig, conta que consumidores europeus chegam a pagar um prêmio de até 3% sobre o quilo da carne produzida dentro dos preceitos do bem-estar animal. "Não é um processo caro de implementar e o ganho de qualidade é evidente", diz. Em breve, seguir normas mínimos de bem-estar deverá ser mandatório no mercado interno. O Ministério da Agricultura está revisando as normas fitossanitárias para a carne e a nova portaria deverá incluir esses cuidados.  Segundo Temple, medidas simples - como proteger os animais do excesso de calor - podem aumentar o rendimento em até US$ 18 por animal. "Os bons produtores entendem a relação existente entre bem-estar animal e produtividade", diz Temple. Engenheira e bióloga, Temple Grandin se tornou uma especialista em bem-estar animal por razões pessoais. Ela tem autismo em grau moderado e, até os 30 anos de idade, era incapaz de olhar uma pessoa nos olhos. O convívio com os animais ajudou a superar o problema. Em retribuição, dedica sua vida a melhorar as condições de vida dos bichos. Ela criou a 'máquina do abraço e de compressão', um dispositivo que ela criou para si e que hoje ajuda a reduzir o estresse do gado.

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