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Mazelas nossas

O segundo mês de 2014 está no fim e já consolida a expectativa de que o quarto ano da administração Dilma desembocará num crescimento ainda mais chinfrim do que os 2 e quebrados por cento que serão divulgados para 2013, na quinta-feira.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2014 | 02h08

O levantamento da Pesquisa Focus que o Banco Central faz semanalmente com mais de 100 instituições aponta para projeções de incremento do PIB neste ano de apenas 1,67% (veja gráfico ao lado). Essa é a mediana das projeções. Muitas instituições trabalham com um número inferior a 1,5%.

Projeções são projeções e podem estar subestimadas tanto quanto as do início dos anos anteriores foram superestimadas. Em janeiro do ano passado, por exemplo, as projeções eram de avanço do PIB de 3,1%, bem maior do que o que será confirmado.

O problema das projeções realistas (ou serão pessimistas?) é que elas se reforçam. Levam os empresários a comportamentos mais defensivos, como o de adiar projetos de investimento e de aumento da produção. É o mesmo que acontece com um time de futebol que já entra em campo convencido de que perderá o jogo e que não tem muito o que fazer para virar o resultado ruim.

Alguns comentaristas entendem que esse crescimento econômico insignificante está abaixo do potencial, ou seja, está abaixo daquilo que normalmente poderia acontecer - algo que se situaria entre 2,5% e 3,5% ao ano.

Há indícios de que as contradições e, principalmente, a ineficiência da política econômica são tão relevantes que o potencial do momento não parece muito acima disso.

O primeiro indício é a presente escassez de mão de obra, especialmente da qualificada. Há três meses, mesmo com esse avanço econômico irrelevante, o desemprego está abaixo dos 5%. Crescer bem mais implicaria aumentar perigosamente os custos do fator Trabalho. E as providências que poderiam aumentar a produtividade da mão de obra, como educação e treinamento, só dão frutos a longo prazo.

O segundo indício de que é difícil crescer muito mais do que o Brasil está crescendo é o baixo investimento. Para crescer mais de 3% ao ano, é preciso um investimento de mais de 22% do PIB. No entanto, até agora, não tem passado dos 18%. Quem come as matrizes poedeiras e não as repõe não pode pretender aumentar sua produção de ovos ou de frangos.

E há outro limitador: a crescente deterioração das contas externas. Puxar pelo crescimento do PIB sem ampliação do mercado externo, da qual tanto as administrações Lula quanto a atual administração Dilma têm descuidado, exigiria ainda mais importações e, portanto, maior deterioração do rombo nas contas externas (transações correntes).

O governo insiste e continuará insistindo em que a marcha lenta da produção nacional está sendo causada pela crise global. Melhor ouvir o recado dos analistas globais de que, se a economia brasileira está vulnerável e hoje figura entre as "cinco mais frágeis" do bloco dos emergentes, não é porque os bancos centrais fazem seu jogo, mas por mazelas nossas e por contradições nossas.

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