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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Me dá um dinheiro aí

Em novembro foi a vez dos presidentes das montadoras americanas de veículos. Há dois dias, a dos presidentes dos grandes bancos dos Estados Unidos.A cena se repete, com a diferença de que há mais banqueiros na berlinda do que presidentes de grandes montadoras. Os cartolas dos altos negócios ficaram enfileirados e constrangidos, expostos aos holofotes das TVs e ao vitupério dos políticos, que os responsabilizaram pelas atuais mazelas da economia mundial. Tanto os presidentes das montadoras como os banqueiros pouca ou quase nenhuma resposta convincente foram capazes de dar.As barbeiragens das montadoras americanas são históricas e já foram exaustivamente comentadas. Falta falar alguma coisa sobre a responsabilidade que envolve não somente os banqueiros, que deitaram e rolaram, mas de toda a máquina que acompanha o desempenho do setor financeiro hoje prostrado pela crise.Em novembro, os presidentes das montadoras foram escrachados por erros menos importantes, especialmente pela falta de sensibilidade política. Eles confluíram da mesma cidade (Detroit) para Washington, a cujo aeroporto chegaram cada um no seu jatinho, pires na mão e uma frase pronta: "Me dá um dinheiro aí." Os banqueiros não conseguem sequer fazer esse teatro, mas estão sendo mais vilipendiados pelos seus salários e bônus de paxás do que pelas lambanças que aprontaram.O problema é que essa deveria ser apenas a ponta de uma enorme cobrança que ultrapassa em muito o âmbito dos executivos das grandes empresas e dos grandes bancos. A primeira responsabilidade a ser cobrada é a das autoridades, que deveriam ter controlado a farra e não o fizeram. Os organismos de supervisão (e são vários nos Estados Unidos) não foram capazes de identificar o excesso de alavancagem (ativos desproporcionalmente maiores à capacidade dos bancos). O Federal Reserve (o banco central americano) em nenhum momento identificou a existência de graves irregularidades que aconteciam sob suas pernas. A Securities and Exchange Commission (SEC), encarregada de garantir a lisura do jogo financeiro, não conseguiu enxergar a maior fraude da História, de US$ 50 bilhões, armada pelo megaescroque Bernard Madoff, 12,5 mil vezes maior do que o assalto ao trem pagador, perpetrado em 1963 pelo inglês Ronald Biggs. As agências de classificação de risco (Moody?s, Standard & Poor?s e Fitch são apenas as três mais importantes), sempre tão arrogantes quando emitem opiniões sobre a qualidade dos títulos de dívida de países emergentes, distribuíram profusões de certificados AAA para papéis que há dois anos vêm sendo identificados como "títulos podres". E os escritórios de auditoria, entre os quais estão a PricewaterhouseCoopers, KPMG, Grant Thorton, Deloitte e Ernst & Young, passaram a cada trimestre certificados de que os balanços dos bancos estavam irrepreensivelmente lindos.O diabo é que a conta vai para o contribuinte, que não tem nada com o que foi aprontado. É ele quem terá de arcar com o rombo orçamentário do governo americano, que ameaça ultrapassar US$ 1 trilhão, e com a dívida pública, que se aproxima dos US$ 11 trilhões. Será que é só assim que caminha a humanidade?ConfiraTem o que chegue? Entre as dúvidas, a revista The Economist tem pelo menos uma certeza sobre o pacote dos bancos: vai ser preciso muito dinheiro.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2009 | 00h00

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