Christina Rufatto/Estadão
Christina Rufatto/Estadão

'Me sinto humilhado ao lembrar as consequências da degradação ambiental', diz presidente do Itaú

Em evento do banco para discutir temas sociais e ambientais, banqueiros dizem que País corre risco concreto de afugentar investidores se não reverter esse cenário

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 10h29

O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, afirmou nesta segunda-feira, 7, que se sente "quase humilhado" de lembrar as consequências da degradação ambiental para o Brasil, e que há expectativa internacional para que esse movimento seja revertido. "Me sinto quase humilhado de ter de lembrar das consequências concretas, que vai faltar investimento, vão cortar o crédito. Apenas o fato de ser nossa casa e os males que possam ser causados deveria ser suficiente", disse, na abertura da conferência Itaú Amazônia, promovida pelo banco. 

Bracher alertou para o impacto sob a ótica do investimento, com o Brasil podendo sofrer discriminação caso não atente para a questão ambiental. "Haverá discricionariedade contra o Brasil na seleção de investimentos", ressaltou, dizendo que em encontros internacionais, há cobrança constante e expectativa de que o Brasil reaja.

As crises ambientais, segundo Bracher, podem ser gravíssimas como as da saúde, referindo-se à pandemia, com a diferença de quem não surgem do dia para a noite. "Não acontecem do dia para a noite como a covid-19, que surgiu em duas ou três semanas. Demoram anos se construindo, e os efeitos podem ser muito mais graves e difíceis de serem revertidos", disse o presidente do Itaú.

"Essa percepção nos motivou a nos unirmos para buscar trabalhar solução, ajudar a construirmos uma solução para o problema da Amazônia", acrescentou.

O Itaú promove, entre hoje e quarta-feira, 9, conferência sobre Amazônia, cujo objetivo é arrecadar doações para apoiar projetos locais. O evento, online por conta da pandemia, foi inspirado em um tradicional encontro feito no exterior, com o mesmo objetivo de articular o setor financeiro para temas sociais e ambientais.

País deveria liderar agenda ambiental

O presidente do Santander Brasil, Sergio Rial, que participa do evento, alertou para o risco de os investidores repensarem suas posições em empresas brasileiras caso o Brasil não abrace tendências sociais e ambientais. "Não absorvendo as tendências do planeta, investidores e clientes vão repensar posicionamento em empresas do Brasil", enfatizou o executivo. "Em fazendo isso, os investimentos são inquestionáveis."

No setor privado, Rial chamou atenção para a pecuária. Segundo ele, a indústria da carne tem condições de despontar de "maneira clara" para contribuir com um planeta melhor e se tornar referência na absorção de tendências. "Estamos migrando para uma economia de baixo carbono. A indústria de pecuária tem de transitar nessa economia de baixo carbono."

Para o presidente do Santander, o País deveria estar liderando a agenda de mudanças climáticas, lembrando que a economia é dependente de petróleo. O Brasil tem, conforme ele, todas as condições de despontar nessa pauta. 

Financiamento com recursos próprios

O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, afirmou que o financiamento a cadeias produtivas da Amazônia será feito com recursos próprios. A atuação, que conta ainda com os rivais Santander Brasil e Itaú Unibanco, não depende, conforme ele, da ajuda do governo Bolsonaro, que vem sendo questionado no exterior por sua postura em relação ao meio ambiente. Uma eventual ajuda do governo  "seria ótima", disse. "Mas não estamos preocupados. Vamos fazer isso com as nossas linhas de crédito", disse Lazari, que também participa da conferência virtual Itaú Amazônia.

Segundo o executivo, os bancos estão mapeando as várias cadeias que podem ser financiadas na Amazônia. Como exemplo, citou a de açaí. "Podemos desenvolver um modelo de negócios que promova o desenvolvimento sustentável de região. Exportar açaí em grão, por exemplo, trabalhando a cadeia, agregando valor e exportando um produto já acabado", disse. "Poderíamos, assim, trazer mais riqueza para a população e empresas locais." Lazari afirmou ainda que a união dos três maiores bancos privados do País em prol da região da Amazônia é um "business, não uma caridade". "Temos muita coisa para fazer", acrescentou. 

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