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'Mea minima culpa'

A autocrítica do PT, ainda que deva ser entendida como um passo elogiável, é parcial e insuficiente

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2016 | 21h00

O primeiro documento do PT editado depois do afastamento da presidente Dilma não se limita a fazer uma autocrítica dos erros e omissões cometidos nos últimos 13 anos de governo. Tenta explicar como o que chama de movimentos reacionários compostos pelas oligarquias locais, classes dominantes e, naturalmente, as forças que fazem o jogo da geopolítica norte-americana usurparam o poder.

Por aí se vê que se trata mais de uma apreciação com forte conotação ideológica do que de análise das consequências das opções equivocadas feitas ao longo do período. 

A Resolução sobre Conjuntura, disponível no site do partido, reconhece que os governos dos últimos 13 anos foram incapazes de reformar o Estado. Mas, entre as reformas que deixou de promover, não estão as que desinchariam o setor público, a que daria maior agilidade às agências reguladoras, a que proporcionaria maior eficiência do Judiciário e a desburocratização dos serviços públicos.

Também não se mencionam o abandono do projeto de reforma da Previdência, cuja necessidade a presidente Dilma chegou a reconhecer, nem tampouco a das leis trabalhistas e do sistema tributário, indispensáveis para a modernização da economia. Apenas fica reconhecido que foram relegadas “tarefas fundamentais como a reforma política, a reforma tributária progressiva e a democratização dos meios de comunicação”.

O PT ignora a importância da Operação Lava Jato e da atuação do juiz Sérgio Moro no contra-ataque à corrupção. Ao contrário, entende que “a Operação Lava Jato desempenhou papel crucial na escalada golpista” e serviu para revelar “o alinhamento de diversos grupos do aparato repressivo estatal - delegados, procuradores e juízes - com o campo reacionário”. Apesar disso, reconhece terem sido seus quadros “contaminados pelo financiamento empresarial de campanhas...” e “envolvidos em práticas dos partidos tradicionais” - portanto, de corrupção.

Além das falhas na condução política, o PT aceita a acusação de que o governo Dilma demorou a perceber o progressivo esgotamento da política econômica vigente entre 2003 e 2010. Mas em nenhum momento entendeu que sua política desmantelou as finanças públicas por meio da abertura de rombos fiscais, maquiagem das contas públicas e pedaladas nunca vistas em tal proporção. Nem tampouco, que suas políticas derrubaram a indústria, quase destruíram a Petrobrás e minaram a saúde do sistema elétrico. Em nenhum momento aceita a responsabilidade pelo estado lamentável da Educação, da Saúde e da Segurança Pública.

Quando se referiu à atuação do Banco Central, admitiu como errada a decisão de elevar os juros, mas não explicou que isso só aconteceu em consequência da disparada da inflação produzida pela política econômica adotada. O ajuste fiscal empreendido a partir de 2014 não foi causa da recessão, que começou antes, mas consequência de um Tesouro quebrado.

Faltou admitir, também, que nenhuma política de crescimento econômico e de desenvolvimento social será sustentável sem equilíbrio das contas públicas e sem solidez dos fundamentos da economia.

A autocrítica do PT, ainda que deva ser entendida como um passo elogiável, é parcial e insuficiente.

CONFIRA:

Não deu

No seu documento de autocrítica, o PT reconhece que não conseguiu atingir seus objetivos na Polícia Federal, no Ministério Público, nas Forças Armadas, no Itamaraty e na “estrutura monopolista” dos meios de comunicação: “Fomos descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal; modificar os currículos das academias militares; promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty; e redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação”.

Prejuízo

A falta de reforma política e as imposições do jogo eleitoral estiolaram a vida interna do PT - diz a Resolução: “O partido perdeu capacidade de elaboração, formação e protagonismo na batalha das ideias. Milhares de novos filiados foram incorporados sem quaisquer vínculos com o pensamento de esquerda ou nosso programa”.

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