André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Média de recuperação de garantias no Brasil é de 13%, enquanto a mundial é 80%, diz Ilan

Presidente do Banco Central defendeu a aprovação de uma série de reformas microeconômicas para aumentar a eficiência do setor bancário

Fernanda Nunes e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2018 | 14h54

RIO- O presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, afirmou nesta segunda-feira, 3, que, por causa de falhas no marco legal, a recuperação de garantias em operações de crédito no Brasil é de cerca de 13% dos valores emprestados, contra 80% na média mundial. Goldfajn chamou a atenção para o fato ao voltar a defender a aprovação de uma série de medidas microeconômicas com foco no aumento da eficiência do setor bancário e do mercado de crédito, a chamada agenda "BC+".

"Não basta só a inflação ficar na meta. Precisamos avançar em medidas estruturais", afirmou o presidente do BC, em palestra durante seminário na Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio.

Segundo Goldfajn, o sistema bancário nacional pode ser mais eficiente e as medidas buscadas pelo BC, incluindo ações no campo das garantias, podem aumentar a competição e, portanto, baixar os spreads e as taxas ao consumidor final. No campo das garantias, Goldfajn citou a criação das Letras Imobiliárias Garantidas (LIG).

"Temos que trabalhar as garantias", afirmou Goldfajn. O presidente do BC deu exemplo ainda de outras ações, para flexibilizar a portabilidade das contas-salário e o mercado de cartões de crédito e facilitar a entrada no mercado de instituições financeiras inovadoras, com destaque para novas tecnologias.

"Temos novos competidores, que podem parecer pequenos, mas estão captando bilhões em NY", afirmou Goldfajn, numa referência ao mercado de meio de pagamento, que prestam o serviço com as maquininhas de cartão de crédito e débito.

Conforme dados mostrados por Goldfajn na apresentação, em 2016, apenas 14,3% do mercado de meios de pagamento estava fora das mãos das duas empresas líderes do segmento. Em 2018, essa fatia subiu para 26,4%.

Goldfajn comemorou ainda a aprovação da lei que cria as duplicatas eletrônicas, em reta final no Congresso Nacional, e previu ainda para este ano a aprovação da lei que altera as regras no sistema de cadastro positivo de crédito. "Em poucos dias vamos ter a duplicata eletrônica", disse Goldfajn.

Ilan classifica como 'firme' a atuação do BC no ano

Ilan defendeu mais uma vez a autonomia do BC, com mandatos da diretoria independentes do Executivo, além da continuidade de reformas, como da Previdência. Durante a palestra, ele argumentou que o objetivo é diminuir as incertezas e o prêmio de risco, para garantir um custo Brasil menor e o crescimento da economia. 

"O Banco Central tem de fato autonomia. Os políticos não entram no BC. Mas, em ano de eleição, todo mundo não para de perguntar se o presidente do BC vai ficar. Em países desenvolvidos não acontece isso. O governo muda num ano e o BC em outro", afirmou. 

Em seguida, acrescentou que o Brasil precisa continuar no caminho de ajustes e reformas e que o crescimento só será sustentável se as reformas continuarem. "A atuação do Banco Central foi firme neste ano. Com reformas e ajustes a recuperação pode ser mais que gradual", acrescentou. Em sua opinião, o crescimento "é o objetivo do governo como um todo".

Em sua palestra, o presidente do Banco Central destacou o trabalho realizado neste ano, que, em sua opinião, geraram avanços. Entre eles, citou a queda do spread bancário. "Tem muito para avançar. Mas já estamos avançando. Há sinais de saúde que estão vindo no sistema financeiro", como o crescimento do acesso ao crédito.

Outro exemplo de melhora citado por Ilan Goldfajn foi a redução da taxa mensal do cartão de crédito. "Uma taxa de 11% ao mês ainda é alta. Mas percebam que estava em 15%. Tem que saber qual é a direção. Não é a direção de medidas populistas, mas estruturais, que vão nos levar a que essa taxa não volte mais", afirmou.

O presidente do BC disse ainda que "as coisas não vão ser resolvidas em dias, mas ao longo do tempo" e que espera que o Congresso aprove definitivamente a criação do cadastro positivo, dos bons pagadores, ainda neste ano.

Inflação abaixo da meta foi 'útil'

Ele ainda afirmou que começar 2018 com a inflação abaixo da meta fixada pelo governo federal foi importante para enfrentar problemas ocorridos ao longo do ano. Goldfajn destacou a piora no cenário externo, com depreciação das moedas de países emergentes, e o ambiente doméstico volátil como exemplos de desafios.

"Começar 2018 com a inflação abaixo da meta se mostrou útil", afirmou Goldfajn, em apresentação durante evento promovido pelo Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio.

Ilan classificou a recuperação econômica como gradual, mas consistente. "O ano de 2018 foi um ano de desafios. O ambiente foi desafiador para as economias emergentes. Houve depreciação nas moedas de todos os emergentes, eu diria em torno de 10%", disse.

Os slides apresentados pelo presidente do BC estão disponíveis no site do órgão. As observações sobre o cenário de 2018 foram feitas após Goldfajn defender a estratégia da política monetária desde 2016. O presidente do BC voltou a lembrar das pressões pela adoção de uma meta de inflação ajustada, no início de sua gestão. E comemorou o fato de a inflação terminar na meta já em 2017, ano seguinte à sua posse.

Em 2017, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou em 2,95%, bem aquém do centro da meta de 4,50%. Já para este ano, a mediana nas pesquisa Focus é de 3,89%, também inferior ao alvo da meta.

"Uma vez a inflação consolidada, este ano, tivemos a satisfação de manter a taxa de juro básica em mínimas históricas", afirmou Goldfajn.

O presidente do BC defendeu a política monetária baseada na comunicação e no gerenciamento das expectativas de inflação. Segundo Goldfajn, é a queda nas expectativas, em primeiro lugar, que leva à inflação mais baixa. "Depois é que veio a queda na inflação. Isso permitiu que a taxa de juro caísse de 14% para 6,5%", disse. 

Ilan afirma que política monetária dos EUA tem sido bem comunicada

Segundo o presidente do BC, o processo de "normalização" da política monetária dos Estados Unidos tem sido gradual e bem comunicado, afirmou ao responder a uma pergunta sobre os mais recentes passos do Federal Reserve (Fed).

"O juro nos EUA não poderia ficar perto de zero para sempre", afirmou Goldfajn, após constatar que o momento é de "normalização". O presidente do BC lembrou que, nos EUA, o desemprego está perto de 4%, nas mínimas históricas, e a economia americana está "crescendo bastante".

"A maior apreensão é que (o juro básico nos EUA) subisse rápido, mas isso não aconteceu. Até agora, (a normalização) tem sido gradual, bem comunicada", afirmou Goldfajn, após ressaltar que, quando o juro sai de zero e vai subindo, pode "gerar turbulência aqui."

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