Medida abala imagem da Argentina no exterior

Taxa de risco do país, que já estava subindo nos últimos meses, acelerou desde que o governo anunciou o controle compulsório da petroleira YPF

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2012 | 03h07

A expropriação da empresa petrolífera YPF, protagonizada pelo governo da presidente Cristina Kirchner - defensora de uma crescente intervenção do Estado na economia argentina -, está abalando a imagem do país nos mercados internacionais.

A taxa de risco da Argentina, que estava subindo nos últimos meses, acelerou sua escalada desde que o governo argentino anunciou o controle compulsório da subsidiária da espanhola Repsol no país. Ontem o risco chegou a 989 pontos básicos, superando outro país com fama de "imprevisível" na região, a Venezuela do presidente Hugo Chávez, que encerrou o dia com 961 pontos.

Segundo a consultora IdeaGlobal, de Nova York, "há muito tempo a Argentina foi um dos destinos mais desejáveis para investimentos na América Latina. Mas, com as medidas adotadas contra a YPF, a Argentina se afasta mais desse exame".

Embora o ministro de Planejamento argentino, Julio De Vido, tenha afirmado na terça-feira que o governo já estava recebendo sinalizações de empresas interessadas em associar-se com a nova YPF, a opinião de analistas de mercado é de que a Argentina não deve conseguir atrair novos investimentos para nenhum setor, pelo menos no curto prazo.

"Quem está instalado no país não vai sair porque não tem para quem vender seus ativos e quem está fora não quer entrar por falta de segurança para seus investimentos", disse um executivo brasileiro que opera na Argentina.

Impasse. Segundo a fonte, que prefere preservar sua identidade, as empresas que operam na Argentina dificilmente vão aumentar seus investimentos para ampliar a capacidade de produção. "As empresas avaliam que ainda ganham dinheiro na Argentina, mas permanecer no país é um dilema: quanto mais pode deteriorar o valor das empresas e o custo de produção?", questiona.

Já o analista Uziel Nogueira, ex-economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), especialista em integração, afirmou que os grandes perdedores dessa cruzada contra a Repsol, iniciada em janeiro, são as empresas internacionais espanholas instaladas na Argentina.

Ele explicou à Agência Estado que o crédito barato originário da entrada da Espanha na zona do euro nos anos 90 permitiu aos empresários espanhóis uma oportunidade única: adquirir, por preço de oferta, empresas estatais em processo de privatização na América Latina, principalmente Argentina e Brasil.

A preocupação sobre eventuais expropriações em outras empresas chegou à Itália, onde o primeiro-ministro Mario Monti afirmou que a decisão de Cristina "é prejudicial para todos". Monti está preocupado com o destino da empresa italiana elétrica Enel, que na Argentina controla a empresa de distribuição de energia elétrica Edesur.

Num discurso, Cristina declarou ontem que a YPF não foi nacionalizada nos nove anos prévios de governo Kirchner porque "a História se constrói como a gente pode, e não como a gente quer. Alguns perguntam por que não fizemos isso antes. Mas este não é um caminho reto, sem tropeções e quedas. É com altos e baixos e obstáculos, que precisam ser esquivados". / COLABOROU MARINA GUIMARÃES

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