''''Medida é tentativa de cortar o mal pela raiz''''

Armínio Fraga: ex-presidente do Banco Central

Entrevista com

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 00h00

O banco central americano resolveu ''''cortar o mal pela raiz'''' ao cortar a taxa de juro básica do país, em 0,50 ponto, e não em 0,25, como a maior parte do mercado esperava. A análise é de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e hoje gestor de fundos de investimento na Gávea Investimentos. O mal mencionado por Armínio são os distúrbios no mercado de crédito americano e global, na esteira da crise de inadimplência na parcela mais arriscada do crédito residencial americano, o chamado subprime. A seguir, a entrevista. O que o sr. achou do corte de 0,50 ponto porcentual?Está dentro do esperado. O mercado apostava mais em 0,25, eu inclusive, mas não se pode dizer que 0,50 seja totalmente inusitado. Por quê? O Bernanke (Ben Bernanke, presidente do Fed) já vinha dando sinais que apontavam nessa direção. Mas por que, ainda assim, o mercado apostava mais em 0,25? Eu não acho que os analistas achavam que uma decisão de 0,25 ponto porcentual seria tecnicamente superior. Na verdade, o que se pensava é que essa questão do risco moral, de o Fed ser visto como contribuindo para salvar investidores, fosse ter muito peso e acabasse inibindo um corte maior. Mas a decisão não foi prejudicial do ponto de vista do risco moral? Eu acho que a decisão do Fed foi bastante defensável. Eu acho que esse problema de risco moral tem de ser resolvido quando o mercado está em euforia. Não vai ser um corte a mais ou a menos que vai salvar um investidor em apuros ou uma instituição que fez um empréstimo equivocado. E, do ponto de vista da inflação, a decisão não é arriscada? Eu acho que é sempre um risco que o BC corre quando reduz o juro. Não é correto o BC trabalhar com o único objetivo de não errar na taxa de inflação. Esse é, sem dúvida, o objetivo principal, e deve ser tratado com carinho. Mas é claro que há preocupação também com a possibilidade de uma recessão. Nos EUA, eles chamam isso de balanço de riscos. Aliás, eu sou da opinião de que os juros já vinham altos antes das turbulências recentes, e esse movimento corresponde, na verdade, a uma normalização das taxas. Mas o que exatamente o Fed quis sinalizar cortando 0,50 e não 0,25? Ele sinalizou, não só com o corte, mas com o comunicado, que a situação no mercado de crédito requer muita atenção, muito cuidado, porque são processos muito perigosos. Eles resolveram cortar o mal pela raiz.

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