Medidas argentinas revelam nova etapa de disputas no Mercosul

O ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna, anunciou ontem uma série de medidas para frear a importação de produtos brasileiros. As barreiras incluem a imposição de novas licenças para a importação de geladeiras, máquinas de lavar e fogões. Analistas começam a avaliar o impacto da medida para o Mercosul.Para o ex-secretário de Indústria da Argentina, Dante Sicca, o Mercosul está vivendo uma nova etapa de disputas, que se arrastam desde os tempos da sua criação, há uma década. ?Ora são os frangos, ora os tecidos, ora os automóveis ou a linha branca. O Mercosul precisa discutir estas questões a fundo para poder solucioná-las de vez?, disse Sicca.O empresário argentino Teddy Karagozian, do setor têxtil, acha que a aplicação de cotas para salvar os empregos na Argentina é a única saída tendo em vista a quantidade de produtos brasileiros no país. Karagozian disse que é a favor do Mercosul, mas desde que não se prejudique a indústria local.Medidas podem atingir indústria automobilísticaCom a exigência burocrática, o ministro da Economia da Argentina espera reduzir a entrada na Argentina destes produtos que, nos últimos cinco meses, aumentou mais de 100% em comparação com o mesmo período de 2003. Além da imposição de novas licenças para a importação de geladeiras, máquinas de lavar e fogões, Lavagna determinou também a aplicação de uma tarifa extra de 21% para os aparelhos de TV fabricados na Zona Franca de Manaus. Numa entrevista ao lado do secretário de Indústria, Alberto Dumont, o ministro informou ainda que sugeriu às montadoras de automóveis instaladas na Argentina, que passem a fabricar carros pequenos e mais baratos. Neste caso, o objetivo é o mesmo: tentar reduzir a entrada de produtos brasileiros no mercado da Argentina. Segundo dados preliminares das concessionárias de automóveis, 60% dos carros vendidos no país são fabricados no Brasil, em um momento em que a economia argentina registra crescimento superior aos 7%. Roberto Lavagna deixou claro que uma das raízes desse aquecimento econômico foi o aumento gradativo do consumo de bens duráveis da classe média argentina, castigada pela última recessão e crise, entre 1998 e 2002. ?Nós não estamos defendendo o discurso ou a prática protecionista. São medidas específicas para os setores onde registramos forte alta de importação de mercadorias brasileiras?, afirmou o ministro. DebatesAs mudanças foram anunciadas às vésperas do início da reunião de cúpula do Mercosul, que começa nesta quarta-feira na cidade argentina de Puerto Iguazú, lado argentino de Foz de Iguaçu. As novas diferenças comerciais serão alvo dos debates. Ali, os quatro presidentes do bloco, além dos líderes dos membros-associados Chile e Bolívia, receberão o presidente do México, Vicente Fox, e autoridades do Egito e do Japão. Mexicanos, egípcios e japoneses estão olho em uma maior aproximação política e comercial com o grupo, que, além dos velhos problemas, tenta superar divergências internas para chegar a um acordo com a União Européia (UE).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.