Medidas chegam para conter alta do dólar

BC libera IOF e mantém leilões de dólar para segurar inflação; estudo mostra que câmbio impactou em 1 ponto

VINICIUS NEDER / RIO , O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2014 | 02h05

A alta de 1,47% do dólar na segunda-feira, maior valorização em seis meses, acendeu o sinal alerta no governo e medidas foram anunciadas para evitar uma escalada no câmbio. Se a preocupação era com a inflação, a ação pode ter ido no sentido correto. A inflação em 12 meses, medida pelo IPCA (6,37%, como divulgou o IBGE sexta-feira), estaria cerca de 1 ponto porcentual abaixo, não fosse o repasse da variação cambial, segundo estimativa da LCA Consultores.

Alguns economistas não veem a cotação do dólar como o fator mais importante para a pressão de preços. No entanto, para o economista-chefe da consultoria, Bráulio Borges, a mudança de patamar do dólar, de meados de 2011 até hoje, é variável relevante no cenário recente de inflação, que vem girando persistentemente perto do teto da meta de 4,5%, com margem de 2 pontos para cima ou para baixo. "O governo está gostando do câmbio entre R$ 2,20 e R$ 2,25."

A julgar pelas medidas recentes, a equipe econômica parece ter diagnóstico semelhante. Na quarta-feira, o Ministério da Fazenda anunciou um alívio na cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre empréstimos no exterior, facilitando a entrada de dólares.

Na sexta-feira, foi a vez de o Banco Central (BC) anunciar a prorrogação do programa de leilões de swap cambial, que estava programado para acabar em 30 de junho. Essa ação, que usa derivativos no mercado futuro de câmbio, equivale à venda de dólares e tende a jogar as cotações para baixo.

Cálculos da LCA apontam em 0,35 ponto porcentual para cima o impacto do repasse cambial no IPCA do ano passado, que encerrou em 5,91%. Em abril de 2013, quando os juros começaram a subir, o dólar comercial estava na casa de R$ 2,00, mas fechou o ano passado em R$ 2,36 - na sexta-feira, fechou em R$ 2,248, com alta de 0,36% na semana, superando assim o susto da escalada de segunda-feira. Em 2012, o impacto do câmbio na inflação foi de 0,6 ponto.

Segundo Borges, de 2005 a 2007, o câmbio ajudou a jogar a inflação para baixo. Com a crise, em 2008, jogou para cima. De 2009 a 2011, a queda do dólar voltou a ajudar o BC a estabilizar os preços. No entanto, desde 2012, o impacto tem sido apenas para cima.

Serviços. Já o superintendente adjunto da Superintendência de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), Salomão Quadros, minimiza essa influência. "Não vejo hoje o câmbio como um tema inflacionário importante. A inflação de serviços continua na primeira linha. E os preços administrados são uma bomba relógio", diz ele, referindo-se à contenção, pelo governo, dos preços de eletricidade, transportes públicos e gasolina.

Segundo Quadros, a inflação de serviços é mais importante porque é mais complexa e difícil de ser combatida e "talvez exija muito mais em termos de sacrifício, de retração econômica". Já a alta do dólar só tende a ser repassada quando é mais expressiva, na casa de 10%.

Do contrário, as empresas preferem esperar, em vez de reajustar preços de imediato. Isso ocorre ainda mais num quadro de economia lenta, como o atual.

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