Medidas de estímulo ainda têm impacto tímido na indústria

PIB do setor caiu 2,5% no 2.º trimestre em relação ao 1.º. Setor pode se recuperar parcialmente no fim do ano com o aumento da procura ocasionada pelo Natal 

Ricardo Carvalho, especial para O Estado de S. Paulo,

31 de agosto de 2012 | 13h07

A redução de 2,5% do PIB da indústria no segundo trimestre (em relação ao anterior) indica que as medidas de estímulo à economia, como as desonerações de impostos adotadas desde o ano passado, surtiram pouco efeito. Segundo o presidente da Ordem dos Economistas do Brasil, Manuel Enriquez Garcia, isso é explicado pelo caráter discriminatório dos cortes, como no caso do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que reduziram tributos apenas para algumas cadeias produtivas. "Os estímulos foram muito focados, não foram horizontais. Pela melhora de um setor, pensamos que todos estão bem. O que não é verdade."

O IBGE informou que a redução do IPI teve efeito positivo no segmento de fabricantes de eletrodomésticos da linha branca. Medida similar para os fabricantes de automóveis, no entanto, não teve o mesmo resultado, segundo o instituto.

Dentro do setor, a indústria de transformação teve o pior resultado - uma queda de 5,3%, a menor taxa desde o terceiro trimestre de 2009 (-9,7%). Em contrapartida, a construção civil subiu 1,5% e a produção e distribuição de eletricidade, gás e água avançou 4,3%.

A redução do IPI foi adotada uma primeira vez em 2009 para debelar os efeitos da crise financeira do ano anterior. O problema, complementa o presidente da Ordem dos Economistas do Brasil, é que desta vez o nível de endividamento dos brasileiros colocou em xeque a eficácia de políticas de desoneração.

"As pessoas com menor poder aquisitivo são as mais propensas a gastar e houve um determinado período de tempo (2009) em que a redução do IPI teve o efeito desejado. Só que muitas pessoas não tinham familiaridade com o crédito e fizeram compras que não eram necessárias." Diante da "desaceleração do processo de consumo", nas palavras do presidente da Ordem, nem mesmo taxas de juros mais baixas animam o brasileiro a gastar mais. "Os resultados obtidos são muito aquém dos desejados para manter a economia crescendo no ritmo de 3% ao ano."

Perspectivas

Nesta semana, o governo prorrogou para dezembro as desonerações no IPI de carros, da linha branca e dos fabricantes moveleiros. Para Garcia, apesar do endividamento dos consumidores, a decisão pode ter um efeito positivo, já que a proximidade do Natal faz com que as pessoas gastem mais.

O economista Felipe Salto, da consultoria Tendências, é mais pessimista. Ele avalia que os reflexos das políticas de desoneração sejam sentidos apenas a partir do ano que vem. "Só que os efeitos serão de curto prazo e a um custo fiscal elevado", pondera.

Sergio Vale, da MB Associados, reforça o coro segundo o qual os programas de estímulo ao consumo têm dado poucos resultados. "Esse modelo não tem muito sentido em continuar, pois poderia gerar problemas de excesso de crédito. Ir apenas por consumo nos levaria a ter um processo inflacionário permanentemente elevado."

Nesse sentido, ele vê com otimismo o anúncio da primeira fase do Programa de Investimento em Logística, que vai investir R$ 133 bilhões na concessão de rodovias e ferrovias para a iniciativa privada. Segundo ele, o programa, se levado adiante com eficiência, tem potencial para começar a impactar a economia a partir de 2014.

"O governo deu sinais de que vai mexer em diversos setores e estamos curiosos para ver o que será realizado em portos, por exemplo. Juntando tudo o que poderá ser feito nesses segmentos, teremos a possibilidade de alavancar os investimentos". O investimento representa hoje 19% do PIB e o governo tem como meta chegar ao patamar de 24% até 2015-2016.

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