Medidas de estímulo deverão ter efeito limitado, dizem analistas

Para economistas, estímulos ao crédito dados pelo governo não se preocupam em melhorar a demanda

Luiz Guilherme Gerbelli e Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

09 de março de 2016 | 05h00

As recentes medidas anunciadas pelo governo de estímulo ao crédito deverão ter efeito limitado na economia brasileira, segundo analistas. 

Para os economistas, o governo busca estimular a oferta em um momento no qual existe problema na demanda. Ou seja, deve haver pouca disposição das empresas e consumidores para a tomada de novos empréstimos, diante das incertezas com o futuro da economia brasileira e do quadro político.

“As medidas anunciadas estão longe de resolverem o problema. São paliativas. Há uma redução de demanda de crédito por parte das famílias e das empresas”, afirma Juan Jensen, sócio da 4E Consultoria.

Entre as famílias, o desinteresse em tomar crédito pode ser explicado pela piora do mercado de trabalho e da renda. No caso das empresas, tem pesado o aumento de custos, a queda no lucro e a própria situação das famílias brasileiras. 

“O ministro (Nelson Barbosa) está levando água para o cavalo e é contestável se o cavalo está com sede ou não”, diz Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Embora o mercado sempre tenha criticado as medidas de estímulo propostas pelo governo, o ministro da Fazenda já disse que é preciso “levar o cavalo à água para ver se ele quer bebê-la”, em referência a uma possível fraca demanda por crédito.

Na avaliação dos economistas, as medidas recentes também prejudicam o ajuste fiscal em andamento. “Atalhos via estímulo à demanda tendem a não funcionar, principalmente se podem implicar passivo fiscal futuro”, afirma Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos.

BNDES. No caso da infraestrutura, especialistas dizem que a redução no custo dos empréstimos do BNDES, inclusive para a segunda fase do Programa de Investimentos em Logística (PIL), pode ter efeito no curto prazo, tornando mais atrativo um ou outro projeto ou atraindo empresas que estão apertadas financeiramente. Nada, porém, que destrave os investimentos em estradas, portos e aeroportos.

“Os juros serão importantes para melhorar a rentabilidade de projetos que estavam quase inviáveis, mas não vai ser o bastante para destravar os investimentos”, analisa o advogado Pablo Sorj, especialista em infraestrutura e financiamento a projetos e sócio do escritório Mattos Filho. Para o advogado, os investimentos em infraestrutura vivem um cenário de “tempestade perfeita”: em meio à recessão, o setor convive com bancos travando o crédito, juros em alta, demanda em queda, insegurança jurídica e a operação Lava Jato, que atinge as principais empresas do ramo.

Regressão. Apesar do efeito de curto prazo, para Cláudio Frischtak, da consultoria Inter.B, o aumento da participação do BNDES como fonte de financiamento à infraestrutura pode sinalizar ao setor privado uma “regressão” à política da primeira fase do PIL, marcada por subsídios. “De um lado, reduz-se o custo de capital e, de outro, reduz-se a confiança. De 2012 a 2014, a confiança (em baixa) foi mais importante. Não foi por falta de subsídios e incentivos que a economia não cresceu”, afirmou Frischtak.

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