Medidas devem ter impacto limitado sobre dólar

Não é descartado um impacto inicial de alta, mas isso deve ser absorvido rapidamente pelo mercado

Paula Laier, da Agência Estado,

12 de março de 2008 | 19h54

As medidas cambiais anunciadas nesta quarta-feira, 12, pelo Ministério da Fazenda foram em linha com o que o mercado já esperava e devem ter pouco impacto nas cotações do dólar ou no ingresso de capital externo no País na avaliação de analistas consultados pela Agência Estado. Não é descartado um impacto inicial de alta, uma vez que medidas de controle de capitais - caso da aplicação de IOF sobre investimentos estrangeiros em renda fixa - normalmente são vistas de forma negativa, mas isso deve ser absorvido rapidamente pelo mercado, avaliam esses profissionais. Veja também:Governo anuncia medidas para conter queda do dólarDólar cai mais e mercado espera medidas cambiaisOs efeitos da desvalorização do dólar Economia brasileira cresce 5,4% em 2007  De acordo com as novas regras, a partir da próxima segunda-feira, as operações de câmbio destinadas às exportações não serão mais tributadas pelo Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 0,38%. Além disso, os exportadores não serão mais obrigados a fazer cobertura cambial de suas vendas externas. A terceira medida prevê a instituição de um IOF de 1,5% nas aplicações de investidores estrangeiros em fundos de renda fixa e em títulos públicos brasileiros. Estão excluídos dessa tributação com o IOF os investimentos estrangeiros diretos, as operações em Bolsa de Valores, as aplicações em IPO, e os derivativos de renda variável e de índices de bolsa. Na visão do economista-chefe da Ativa Corretora, Arthur Carvalho, as duas medidas para o exportador devem ter pouco impacto sobre o câmbio, pois, eventualmente, as empresas têm que internar o capital e, conseqüentemente, isso não afeta a entrada final. No caso da aplicação de IOF, ele explica que todas as medidas de controle de capitais são vistas como negativas, pois sinalizam intervencionismo por desconforto com o nível do câmbio. Ao mesmo tempo, contudo, a impressão é de que estão usando o IOF como um imposto de quarentena de capitais, que ao mesmo tempo em que "incentiva" o investimento de longo prazo - pois a taxa seria regressiva conforme o tempo em que o dinheiro fica no País; mas desencoraja a aplicação em renda fixa - por causa da taxação em si. O economista-sênior do Banco Santander, Maurício Molan, também considerou a aplicação de IOF como a medida mais agressiva entre as anunciadas pela Fazenda, explicando que dependendo do prazo de aplicação pode ter um efeito pior do que a retomada de cobrança do IR sobre tais investimentos. Por incidir sobre o estoque de investimento, no curto prazo, pode sair mais caro do que o IR, que era cobrado sobre o rendimento, explicou. Ou seja, desencoraja investimento de curto prazo e favorece aplicações com prazos maiores. Para Molan, contudo, o efeito sobre as cotações deve ser temporário, apenas refletindo a reação à sinalização do governo de que está disposto a agir para conter a apreciação do real. Em relação aos títulos públicos, o economista acredita que pode ter algum impacto na medida em que o governo aumentou o custo do investidor para comprar papéis de renda fixa. Para o vice-presidente de câmbio do banco WesLB no Brasil, Alexandre Ferreira, a medida pode elevar o spread dos títulos. "Mas o efeito líquido é muito pequeno no fluxo", avalia, explicando que se o estrangeiro quiser tomar risco ele pode aplicar via derivativos.  Para o especialista, as novas regras devem ter "realmente pouco impacto" no câmbio amanhã. "Como o anúncio das medidas ficou nesse vai-e-volta, é difícil saber o que estava no preço", pondera. "Mas o efeito sobre a cotação do dólar ante o real deve ser pontual", reforça. Ele enfatiza que o dólar passa por uma desvalorização global, e não são medidas internas que irão evitar a queda dele no mercado brasileiro. Ferreira elogiou a suspensão do IOF para exportadores, que tem mais o efeito de um incentivo setorial do que uma ação para conter a apreciação do real em relação ao dólar. "A perda de arrecadação nesse caso não é relevante, tendo em vista que o crescimento da arrecadação segue muito forte", argumentou. A medida ajuda no aumento de rentabilidade para os exportadores com o dólar em uma mesma cotação, acrescentou. O chefe da equipe de análise da Link Investimentos, Celso Boin Jr, concorda com os colegas de que será "curto" o impacto das medidas sobre as cotações, sendo absorvido mais à frente. Para ele, as medidas têm pouco efeito prático e foram anunciadas em um momento errado, uma vez que o mercado financeiro passa por um momento delicado com a crise relacionada ao ambiente de crédito no cenário internacional. "Há preocupações maiores", argumenta.

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