Medidas do governo vão na direção certa, mas implementação é maior risco, diz consultoria

Para consultoria dos EUA, melhor maneira de aliviar preocupação de investidores é implementar medidas audaciosas o mais possível

Altamiro Silva Júnior, correspondente, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2016 | 17h59

As primeiras medidas anunciadas nesta terça-feira, 24, pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para ajustar as contas fiscais brasileiras são positivas e vão na direção certa para corrigir a deterioração das contas públicas. A implementação de tais medidas, contudo, permanece sendo o principal risco, avalia a consultoria norte-americana Pantheon Macroeconomics ao comentar ao Broadcast os anúncios feitos pelo governo nesta terça-feira, que incluem um teto para o aumento do gasto público.

"A melhor maneira de o novo governo aliviar a preocupação dos investidores internacionais sobre o Brasil é implementar medidas audaciosas o mais cedo possível", disse o economista-chefe da Pantheon para a América Latina, Andres Abadia. "As medidas anunciadas hoje mostram o compromisso do governo em buscar uma estabilização das contas públicas, apesar dos desafios e da difícil situação da economia brasileira", completa.

O economista avalia que Meirelles foi na direção contrária de outros ministros anteriores no Brasil, que tinham foco mais em ajustes de curto prazo, e anunciou um conjunto de medidas mais estruturais, o que mostra um avanço. Outro fator positivo é que o foco é pelo lado das despesas, ao invés de buscar aumentar impostos em um país com uma carga tributária já elevada e distorcida.

"No geral, as medidas apontam para a direção certa, mas o Congresso ainda tem que votar algumas e elas podem ir água abaixo", disse Abadia. A situação política no Brasil melhorou quando comparada há algumas semanas, mas a incerteza permanece e deve seguir influenciando os mercados no curto prazo, como aconteceu ontem com o vazamento do áudio de uma conversa do ministro afastado do Planejamento, senador Romero Jucá (PMDB-RR).

Para o economista, as medidas são apenas o primeiro passo de muitos que o governo precisa dar para conseguir estabilizar a trajetória de deterioração dos indicadores fiscais, que são avaliados de perto pelas agências de classificação de risco por medirem a solvência de um país. Para conseguir fazer, por exemplo, a relação entre dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) cair, Temer terá que tomar medidas adicionais de corte de gastos e até mesmo elevar impostos mais adiante. Muitas das medidas necessárias para um ajuste fiscal que mude a trajetória de alta desse indicador vão precisar de reformas na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) ou mesmo na Constituição.

Para a Pantheon Macroeconomics, a janela de oportunidades de Temer para levar as medidas ao Congresso está se reduzindo, na medida em que daqui a alguns meses começa a campanha para as eleições municipais e podem surgir outras denúncias pelo lado político. "Quanto mais rápido essas medidas começarem a entrar em vigor, melhor, na medida em que a incerteza política e ruídos em Brasília vão permanecer no curto prazo", disse Abadia.

Em um relatório recente sobre o Brasil, a Pantheon avaliava que Temer herdou o País em um verdadeiro "caos", mas deve conseguir avançar com o ajuste, apesar dos enormes desafios pela frente, os quais incluem resolver parte da rigidez dos gastos públicos e reformar a Previdência. 

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