Medidas põem em risco o alongamento da dívida pública

Ao afugentar os principais compradores de títulos de longo prazo - os investidores estrangeiros -, a série recente de medidas definidas pelo governo para combater a valorização do real pode dificultar a estratégia do Tesouro de alongar o perfil da dívida pública. Isso fica claro nos prêmios de risco embutidos nos papéis e na curva de juros expressa pelos papéis negociados na BM&F.

Cenário: Denise Abarca, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

Ambos refletem o que alguns especialistas viram como radicalização do governo em relação à taxação de investimentos estrangeiros na renda fixa. Por isso, o Tesouro reduziu sua oferta de títulos longos no leilão da última quinta-feira e, mesmo assim, não conseguiu vender o papel mais longo (NTN-F, com vencimento em 2021).

Para o sócio-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi, a estratégia de alongamento de prazo da dívida ficou comprometida. "A briga entre o Tesouro e o estrangeiro vai durar", diz. Em um cenário mais crítico, Petrassi não descarta que "a NTN-F 2021 tenha de ser revista". "O Tesouro pode ficar num córner", diz.

Para o gestor da Grau Gestão de Ativos Huang Kuo Seen, "no curto prazo, realmente, foi criado um estresse para colocar os papéis longos". Ele pondera, no entanto, que o governo retomou as emissões externas de bônus em reais, o que pode ser um contraponto à pressão na dívida interna. "O Tesouro percebeu que o gringo quer remuneração em reais, tanto faz aqui ou lá fora."

Para o sócio da Tendências Consultoria Nathan Blanche, o IOF sobre entradas de capital externo pode gerar problemas de financiamento ao governo, com baixa na liquidez dos títulos. "A conhecida escassez de poupança interna pode ser agravada se os investidores estrangeiros diminuírem seu apetite por renda fixa", afirma. "Vale lembrar que a participação dos estrangeiros em títulos de longo prazo é relevante, o que pode ocasionar problemas nos financiamentos."

Em setembro, antes dos dois aumentos de imposto feitos pelo governo, a parcela de títulos com investidores estrangeiros no total da dívida voltou a bater recorde, atingindo 10,23%, o equivalente a R$ 154,1 bilhões. O volume da dívida interna a vencer nos próximos 12 meses caiu de 27,15% em agosto para 25,72%, e o prazo médio diminuiu de 3,44 anos em agosto para 3,42 anos.

Ao longo dos últimos anos, o Tesouro vem promovendo grandes esforços para alongar o prazo da dívida interna, com consequente redução nos custos de gerenciamento.

É JORNALISTA DA AGÊNCIA ESTADO

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