Werther Santana/Estadão - 26/10/2021
Posto de gasolina na capital paulista; o governo e o Congresso defendem iniciativas para reduzir os impostos, com prejuízo nas contas públicas Werther Santana/Estadão - 26/10/2021

Medidas para conter o preço da gasolina podem ter o efeito contrário, dizem economistas

Para economistas, as propostas de corte de impostos e aumento de subsídios enfraquecem as contas públicas, o que tende a elevar o dólar, fazendo o combustível subir

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 05h00

A pouco mais de sete meses das eleições, a escalada do preço do petróleo se tornou problema central para o presidente Jair Bolsonaro. A ameaça de que a commodity faça a inflação disparar, após um 2021 em que os consumidores já viram seu poder de compra diminuir, fez o governo e o Congresso colocarem propostas na mesa consideradas, por grande parte dos analistas, populistas e contraproducentes.

Apesar de contrários às medidas, economistas concordam que o preço do petróleo ameaça a inflação e a atividade em um ano em que a economia enfrenta desafios. Do lado da inflação, a desvalorização do dólar (que começou o ano valendo R$ 5,57 e fechou a semana em R$ 5,24) ameniza a alta do petróleo. Mas a expectativa é de que, com a proximidade das eleições, esse efeito seja anulado - e a inflação suba ainda mais.

“Vemos um cenário de incertezas à frente. O câmbio pode ficar entre R$ 5,50 e R$ 5,60 quando o mercado precificar que o próximo governo vai ter dificuldade fiscal. Aí, com o petróleo tateando os US$ 100, haverá mais um elemento de pressão. Com isso, provavelmente, vamos ver a Petrobras subindo o preço do combustível”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. 

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, destaca que, apesar da alta do petróleo, a inflação não deve repetir em 2022 uma trajetória como a do ano passado, quando alcançou 10%. “Mesmo que o petróleo se aproxime de US$ 100, o impacto será menor se comparado ao da alta do barril de US$ 40 para US$ 80”, diz. A economista, porém, reconhece que, para o consumidor, cujo poder de compra já se deteriorou em 2021, o efeito é considerável.

Produção

Para Rodolfo Margato, economista da XP, a consequência do petróleo nas alturas será mais sentida na atividade econômica. Além de a alta na cotação reduzir o consumo - dado que a população terá uma renda disponível para compras menor -, prejudicará cadeias produtivas. “O custo de produção da indústria, principalmente logístico, vai aumentar. Em muitos casos, não será possível repassar ao consumidor. As empresas reduzirão margens e investimentos”, diz.

Para tentar aliviar a situação, o governo e o Congresso propõem reduzir impostos sobre combustíveis, dar auxílio-diesel a caminhoneiros, subsidiar o transporte público e aumentar o vale-gás para famílias de baixa renda. Dependendo do que for aprovado, o impacto fiscal dessas medidas pode chegar a R$ 100 bilhões, valor superior ao orçamento do Auxílio Brasil, que é de R$ 89 bilhões.

“Vamos abrir mão de uma arrecadação expressiva sem a mínima garantia de que vai ter um efeito para o consumidor, porque o preço é determinado pelo câmbio e pelo petróleo”, diz Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria.

Alessandra destaca que a proposta deteriora a situação fiscal, o que desvaloriza a moeda. Com o real mais fraco, a gasolina fica mais cara na bomba, e a inflação, mais pressionada. Segundo cálculos da economista, a população já tem pago a conta de medidas que enfraquecem as contas públicas. “Se o real estivesse alinhado aos fundamentos, o preço da gasolina em 2021 teria sido, em média, 76 centavos mais barato”, diz. 

Solução, fundo tem de ser criado quando o preço está baixo

Para José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, uma forma para driblar a alta do petróleo seria criar um fundo de estabilização. Com um imposto sobre as vendas da commodity, seriam obtidos recursos para usar quando a cotação ultrapassasse determinado patamar. Isso, porém, tem de ser feito quando o preço está baixo, explica.

“O problema é que, aqui, fica tudo para a última hora. Depois que a casa foi arrombada, é difícil fazer seguro. Ninguém se preparou para a situação atual. Se o petróleo chegar a US$ 100, o governo está desarmado, e dar subsídio para quem não precisa é torrar dinheiro público”, diz.

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Tensão na Ucrânia pressiona cotação do petróleo e inflação

Cotação do produto já avança 18% neste ano depois de ter subido 54% em 2021; a alta altera a perspectiva dos economistas para a inflação, diante do risco de conflito na Ucrânia

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 05h00

Depois de subir 54% em 2021 – o que resultou em uma alta de 47,5% no preço da gasolina no Brasil, tornando-se umas das principais fontes de pressão inflacionária –, o petróleo já avançou mais 18,2% neste começo de ano. Na sexta-feira, o barril atingiu US$ 95 e, diante da ameaça da Rússia de invadir a Ucrânia, alguns economistas já falam da possibilidade de a cotação ultrapassar US$ 120.

Importante produtor de petróleo, a Rússia poderia, em meio a uma guerra, interromper o fluxo do produto – o que elevaria a cotação da commodity. “Só a expectativa de invasão já causa uma pressão nos preços. Estamos revisando nossas projeções de petróleo para incorporar essa história toda. O viés é de alta”, diz a economista-chefe da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro.

Com a expectativa de que haveria um aumento da oferta de petróleo na América do Norte e uma leve desaceleração na demanda, Alessandra projetava que o barril terminaria 2022 ao redor de US$ 65. “Esse patamar daria um bom alívio para a inflação.” Inclusive, significaria uma queda de 16% na comparação com o valor registrado no fim de 2021. O cenário, no entanto, mudou mais uma vez, e o petróleo, seu efeito na inflação e na atividade voltaram a se tornar uma preocupação para governos de todo o mundo.

Reviravoltas

Há 22 meses, sobrava petróleo no mundo. Com a pandemia e países em lockdown, a demanda pelo produto despencou em 2020, os estoques ficaram abarrotados e, de repente, era preciso pagar para armazenar o óleo – o que fez o preço do WTI (tipo de petróleo produzido nos EUA) retrair. O barril do Brent (um petróleo mais leve e que serve como principal referência global) caiu na época para menos de US$ 20 – a primeira vez desde 2001 –, e a cotação parecia longe de se tornar um problema.

A demanda, porém, voltou muito mais rápido do que se previa, impulsionada por estímulos econômicos adotados por vários governos, e os países produtores não acompanharam o ritmo. Agora, quando se esperava uma acomodação, o preço voltou a disparar.

“Se houver um conflito, o céu é o limite (para a cotação). Caso não haja, provavelmente estamos perto do pico. A conclusão é de que, nos próximos meses, o preço ainda vai ser alto. Se não tiver guerra e o Banco Central dos EUA aumentar o juro, é possível que a demanda esfrie um pouco”, diz José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. 

Países buscam dar alívio ao consumidor

Com o petróleo pressionando a inflação no mundo, vários países adotaram medidas para tentar aliviar os preços aos consumidores. O Japão passou a subsidiar fornecedores de petróleo em janeiro e anunciou inspeções em postos de combustíveis para garantir que os preços não subam para o consumidor final. A França deu, no ano passado, um reembolso único de € 100 para cerca de 38 milhões de pessoas, e Portugal criou uma política de desconto por litro de gasolina. 

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