Medo de perder o emprego cresce e já afeta o consumo

Projeções mais otimistas indicam que crescimento das vendas do comércio varejista ampliado será de no máximo 2% este ano

MÁRCIA DE CHIARA , O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2013 | 02h27

O medo do consumidor de perder o emprego já afetou as vendas do comércio e deve continuar nos próximos meses, prevê o presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), Claudio Felisoni de Angelo. A projeção mais otimista do instituto é que as vendas do comércio varejista ampliado cresçam no máximo 2% este ano em comparação a 8% em 2012. O comércio varejista ampliado inclui veículos e materiais de construção e subiu 3,7% neste ano até junho, segundo o IBGE.

O especialista em comércio varejista acaba de concluir uma pesquisa com 500 consumidores na cidade de São Paulo para avaliar o medo das pessoas de perderem emprego e o resultado não foi animador. No fim do primeiro semestre, 17,3% dos entrevistados declararam que temiam o desemprego. Esse resultado subiu para 19,6% neste trimestre e pode passar de 20% no último trimestre deste ano, de acordo com os entrevistados. Esse resultado contraria o comportamento normal do emprego e da atividade que crescem no fim do ano.

"Embora a taxa de desemprego continue praticamente estável, hoje o consumidor tem uma percepção que cresceu o risco de ficar desempregado", afirma Felisoni. "É exatamente a partir dessa percepção que as pessoas definem o seu consumo", acrescenta.

Desemprego. Além de pesquisar como anda o medo do consumidor de perder o emprego, o especialista realizou um estudo econométrico inédito para medir o impacto do desemprego no consumo. Para isso, o economista avaliou entre janeiro de 2003 e maio de 2013 a relação entre o comportamento das vendas no varejo e as variáveis renda, crédito e taxa de desemprego.

O estudo mostrou que o aumento de 1% em 12 meses na disponibilidade de crédito e renda amplia em 0,35% as vendas no varejo em igual período. Já um acréscimo de 1% na taxa de desemprego por dois meses seguidos reduz em 0,33% o volume de vendas no varejo.

"O aumento da expectativa de desemprego praticamente anula o efeito positivo dos ganhos de renda e de crédito no varejo", diz Felisoni.

Segundo o especialista, o estudo revelou que as vendas não dependem apenas da disponibilidade de renda no bolso, mas também das suas expectativas em relação à manutenção do emprego no futuro próximo. E que o peso dessas variáveis é praticamente equivalente.

Na avaliação de Felisoni, o resultado das vendas do varejo restrito, que cresceu 3% neste ano até junho e foi o pior em oito anos (ver reportagem abaixo) já reflete o maior risco de aumento do desemprego. Felisoni pondera que variáveis importantes, como alta de juros, inflação e o elevado nível de endividamento do consumidor, também são fatores que contribuíram para o resultado ruim.

Natal. Também o assessor econômico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), Fábio Pina, considera a perspectiva de desemprego como o fator crucial para o desempenho nas vendas do varejo, ao lado da renda. "Se estou empregado e tenho certeza de que vou continuar, o meu carrinho de compras no supermercado é diferente de quando as incertezas aumentam", diz. Na opinião de Pina, pelos resultados do varejo obtidos até agora, as indicações são de um "Natal modesto", com alta de 2% a 3% em comparação ao de 2012.

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