Medo do cenário externo pode ter levado BC a mudar comunicado do Copom

Economista do banco JP Morgan, Fábio Akira, diz que o BC passou uma mensagem sucinta para ter um grau de liberdade bem maior sobre suas futuras decisões de política monetária

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

21 de julho de 2011 | 13h34

O desconforto com a possibilidade de surgimento de "eventos externos mais drásticos" no curto prazo, especialmente envolvendo a questão fiscal nos EUA e a crise de dívida soberana de países europeus, como a Grécia, pode ter sido o principal fator que levou o Copom a mudar o tom do comunicado divulgado ontem após a decisão de elevar os juros para 12,50% ao ano, comentou o economista do banco JP Morgan, Fábio Akira. Segundo ele, essa hipótese precisará ser confirmada na ata que será divulgada no dia 28. "Pode ser que esteja no ar um certo temor de 'déjà vu' em relação à crise que ocorreu em 2008", afirmou. "O BC passou uma mensagem sucinta, que de certa forma me surpreendeu, para ter um grau de liberdade bem maior sobre suas futuras decisões de política monetária", disse.

Akira apontou que em "situações normais", o cenário doméstico - relacionado à evolução da inflação e desaceleração do nível de atividade - deve prevalecer para que o BC oriente a trajetória da taxa de juros. Contudo, destacou, o problema é quando surge no horizonte o temor de "eventos de cauda", de origem externa, cuja probabilidade é baixa, mas com a perspectiva de efeito negativo. Embora o JP Morgan trabalhe com o cenário de que o teto da dívida pública dos EUA será elevado e que será registrada uma reestruturação ordenada do passivo mobiliário da Grécia, se um desses fatos não se confirmar, poderá surgir pânico temporário no mercado financeiro internacional, com aversão a ativos de risco, retração do fluxo de capitais para mercados emergentes e efeitos desinflacionários para boa parte do mundo. Nesse contexto negativo, provavelmente o Brasil poderá ser afetado, como ocorreu entre outubro de 2008 e março de 2009, quando o País mergulhou uma súbita recessão.

Para Akira, a surpresa do comunicado de ontem do BC foi que o documento ficou distante do tom empregado pelo relatório de inflação de junho. Nele, o Banco Central indicou em três cenários que com a taxa de juros a 12,50% ao ano, a Selic ficaria distante do centro da meta de 4,5% em 2012. No texto, o cenário de referência mostrou que a projeção para o IPCA atingiu 4,8% no final do próximo ano, acima da estimativa de 4,6% para o mesmo período informada no relatório de inflação de março. "Na ata do Copom que será divulgada na próxima semana será necessário verificar até que ponto questões externas motivaram o BC a adotar o comunicado sucinto de ontem", disse. Akira prevê mais uma alta de 0,25 ponto porcentual no dia 31 de agosto e acredita que a taxa será mantida em 12,75% até o final de 2012.

Por trás da mensagem do BC, curta e aberta a todas as possibilidades, inclusive de ter encerrado ontem o ciclo de alta de juros iniciado em janeiro, pode estar a intenção do Banco Central de não cometer o mesmo erro de estratégia adotado a partir de setembro de 2008, quando o mundo mergulhou na pior crise econômica desde 1929. No dia 10 de setembro de 2008, cinco dias antes da quebra oficial do banco Lehman Brothers, o Copom elevou os juros de 13% para 13,75% ao ano. Em função da gravidade da situação provocada pelo credit crunch, o Fed reduziu os juros de 2% para 1,5% ao ano no dia 8 de outubro, em reunião extraordinária, sincronizada com a ação de outros BCs no mundo. Embora o Federal Reserve tenha reduzido os juros para 1% no dia 29 de outubro, na mesma data o Copom manteve a Selic estável em 13,75%.

No dia 10 de dezembro de 2008, O Copom se reuniu novamente e não alterou os juros. No dia 16 daquele mês, os EUA voltaram a cortar as taxas dos Fed Funds para uma banda mínima entre 0% e 0,25%. No dia 21 de janeiro de 2009, quatro meses depois da falência do Lehman Brothers, o Copom reduziu os juros, para 12,75% ao ano. Economistas próximos ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, como Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto, manifestaram com ênfase à Agência Estado que aquela estratégia do BC foi "um erro muito grave." O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, foi diretor da instituição de junho de 2005 a dezembro de 2010.

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