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Medos crônicos que afetam as economias

O medo é uma emoção normal e tem significado importante na reprodução das espécies, pois é ele que nos motiva a agir, de modo a aumentarmos nossa chance de sobrevivência. A universalidade e o valor adaptativo do medo mostram como ele está enraizado na experiência humana. Mas o medo constante, crônico, pode se transformar em pânico, afetando também as economias.

Sérgio Amad Costa, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2016 | 06h00

O sociólogo polonês contemporâneo Zygmunt Bauman cunhou a expressão “medo líquido”, propondo um medo que se esparrama em todos os lugares, que pode vazar em qualquer canto ou fresta: nas casas, no trabalho, nas ruas. Um medo muitas vezes exacerbado, estampado no corpo das pessoas em forma de pânico.

Há vários tipos de medo que, no mundo contemporâneo, se tornam pânico, prejudicando não só as pessoas, mas as economias em geral. As origens e a intensidade desse sentimento variam de país para país. Cito alguns mais alarmantes. Um é o medo das ações dos terroristas, que nos últimos 3 anos atingiram 67 nações.

O caso da França é emblemático. Estive recentemente em Paris e vi uma população com medo crônico do terrorismo. A maioria das lojas de médio e grande portes tem na porta seguranças que revistam todas as pessoas que pretendem entrar. Bares que tinham antes seus lugares disputados e restaurantes que exigiam reservas estavam com lugares sobrando. O hotel, que estava sempre lotado, agora tinha 20% de seus quartos vagos. A farmácia, em outras épocas com filas para o atendimento, desta vez estava vazia. Perguntei ao proprietário o motivo e a resposta foi direta: “Estamos em guerra”. Mas a situação é pior que a expressão usada por ele, pois na guerra há regras, enquanto sob a ação do terrorismo nada existe, apenas o pânico impera.

Este contexto, na França, atinge diretamente sua economia e afeta a de outros países. Aproximadamente 8% do Produto Interno Bruto (PIB) da França está voltado ao turismo, empregando direta e indiretamente cerca de 3 milhões de pessoas. Esse país teve redução de 11% nas suas reservas internacionais de hotéis para o verão que passou, em comparação com 2015.

O sentimento constante em relação a possíveis novas ações terroristas traz consequências negativas para aquela sociedade não só no âmbito do turismo e do entretenimento, mas na sua economia em geral. O medo permanente gera o estresse também no trabalho, provocando nos profissionais a queda na produtividade, e nos demais setores da economia. Além disso, ele abala a confiança e piora o sentimento de consumidores e investidores.

Outro tipo de medo que há na contemporaneidade é o do desemprego. Esse sentimento, gerado por crises econômicas, atinge em cheio os brasileiros. Ele se manifesta pela possibilidade de ausência da fonte de sobrevivência do indivíduo. Segundo pesquisas, este é o principal medo dos profissionais hoje no País. Ele afeta também diretamente a economia, por causa do estresse diário do trabalhador, principalmente os de baixa renda, em perder seu emprego. É sintomática a queda na produtividade, colaborando para menos ganhos empresariais e afetando também a confiança de consumidores e investidores.

Há outros medos crônicos provocadores de pânico no Brasil e que diminuem a produtividade no trabalho, aviltando a economia. Entre vários, cito dois. Um se manifesta na cidade de São Paulo: o de ser assaltado, assombrando a população todos os dias. Outro medo, mais frequente nos citadinos do Rio de Janeiro, é originado pelos tiroteios entre policiais e traficantes, em morros e bairros.

O fato é que vivemos, hoje, sob algumas formas de medo crônico que passam a fazer parte do nosso cotidiano. É um novo tipo de componente de custos nas economias, sejam de países ricos ou pobres. Ele, agora, é levado em conta pelos investidores. Portanto, o combate às causas geradoras destes pânicos generalizados deve ser foco prioritário das ações do governo quando se pensa em fortalecer a economia global e seu desenvolvimento sustentável.

É professor de recursos humanos e relações trabalhistas da FGV-SP

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