Mega canal da hidrelétrica muda paisagem do Xingu

O enorme canal que vai ligar o Rio Xingu ao reservatório intermediário da Hidrelétrica de Belo Monte começa a ganhar formas e mudar a paisagem local. Os 20 quilômetros de extensão da obra já foram abertos e estão em estágios diferenciados de trabalho. Por enquanto, apenas 1 km está concluído. Outros estão em fase de revestimento do leito e taludes do canal ou na etapa de aprofundamento do terreno.

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2014 | 17h42

A expectativa é concluir todo o trabalho até o fim do ano. Mas a meta não será uma tarefa fácil de cumprir, especialmente com o histórico de paralisações desde o início das obras da hidrelétrica. Além disso, parece um trabalho sem fim. A construção do canal, que na prática é um rio artificial construído no meio da Amazônia para desviar a água do Xingu, exige a escavação de 110,8 milhões de m³ de rocha e solo – volume equivalente ao Canal do Panamá. Todo esse material encheria 5 milhões de caminhões basculantes.

Hoje 1.400 máquinas, tratores e caminhões trabalham freneticamente para cumprir os prazos do canal, que terá 25 metros de profundidade, 210 metros de largura na base e 360 metros na superfície. Toda a retirada de rocha e solo é feita em camadas. “Primeiro fazemos a abertura do canal para a cota 84 (em relação ao nível do mar). Retiramos todo o material, criamos uma frente de serviço e praça de manobra para as máquinas e caminhões. Depois começamos tudo de novo, com detonações de rocha e retirada de material para a cota 75, que será o fundo do canal”, afirma o engenheiro da Norte Energia, Marcelo Boaventura.

Com o solo nivelado, é hora de fazer o revestimento do leito e dos taludes. As rochas retiradas de outros locais da obra são trituradas e usadas para cobrir o fundo do canal. As pedras precisam ter tamanhos e pesos similares, para aguentar o volume de água que vai passar pelo canal: a vazão será de 14 mil m³ por segundo, afirma Boaventura.

Por estar numa área sensível do ponto de vista ambiental, o projeto exigiu uma série de soluções diferenciadas. Nos 20 quilômetros de extensão do canal de derivação, passavam dezenas de igarapés cujo curso foi interrompido com a construção de diques para evitar o alagamento da área de trabalho das máquinas e caminhões.

O engenheiro da Norte Energia explica que foram criados cinco sistemas de drenagens com canais paralelos nas margens do grande canal principal para absorver a água desses pequenos rios. Alguns igarapés tiveram seu curso invertido. Corriam para um lado e agora vão desaguar no Rio Xingu. A empresa garante que a medida não provocará impactos ambientais ao meio ambiente. No total, serão construídos 27 diques para barrar os igarapés ou para evitar que a água do reservatório intermediário de Belo Monte se espalhe para regiões mais baixas.

Ao contrário da maioria das usinas, em que a construção se concentra num único local, Belo Monte tem três grandes frentes de trabalho: Pimental, Bela Vista e Belo Monte. O barramento e o vertedouro principal ficam no Sítio Pimental, onde está sendo instalada também a Casa de Força Complementar, há 40 km de Altamira. Desse ponto, por meio do canal de derivação, parte da água do rio será desviada para a Casa de Força Principal, no sítio Belo Monte, que terá 18 turbinas.

Pelo gigantismo da obra, dá para entender porque índios e ribeirinhos temem que o rio seque abaixo da barragem principal quando a usina começar a funcionar. Mas os executivos garantem que a hidrelétrica terá um rígido sistema para controlar o volume mínimo de água no rio, definido pela Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), no processo de licenciamento ambiental.

Mas a vida dos ribeirinhos já mudou. Quem antes andava sem restrições pelo Rio Xingu agora tem de passar pelo Sistema de Transposição de Barcos construído pela Norte Energia, no Sítio Pimental. Desde fevereiro de 2013, dois sistemas estão em operação: um para barcos pequenos, como rabetas e voadeiras, e outro para embarcações maiores. No primeiro caso, a embarcação é rebocada por um trator num percurso de 700 metros. No outro, carretas são responsáveis pela transposição dos barcos. Entre o início do ano e final de março, foram realizadas 259 transposições, com um total de 1.169 usuários atendidos.

Tudo o que sabemos sobre:
Belo Monte

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.