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Megafazenda da falida Boi Gordo volta a leilão

Área do tamanho da cidade de São Paulo, no Mato Grosso, agora tem deságio e está dividida em lotes

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2016 | 05h00

É a terceira tentativa, mas os organizadores acreditam que, desta vez, vai vingar. Será leiloada na próxima terça-feira, dia 16, uma nova leva de terras da massa falida da Fazendas Reunidas Boi Gordo, protagonista de um esquema de pirâmide financeira que entrou para a história como o maior do País. A área, em Comodoro, no Mato Grosso, junto à Bolívia, é a perder de vista: tem cerca de 135 mil hectares, quase a extensão da mancha urbana da cidade de São Paulo. A Boi Gordo pediu falência em 2004 deixando, em valores atualizados e com correção monetária, dívidas de R$ 4 bilhões. O 32 mil investidores do esquema que micou não viram a cor do dinheiro até hoje.

Judiciário, promotoria e síndico da massa falida trabalharam por dois anos e meio, em conjunto, para redirecionar o tratamento do que consideram a joia do espólio da Boi Gordo. Já venderam 11 fazendas. Pagaram pendências trabalhistas e tributárias. Têm R$ 160 milhões em caixa para ressarcir investidores. No caso da mega área no Mato Grosso, que não atraiu interessados em outros pregões, pode-se dizer que agora inovaram.

“Fizemos um esforço de forma organizada para tornar o leilão mais atraente aos investidores porque queremos que a Boi Gordo seja um divisor de águas no caso de falências”, diz Marcelo Sacramone, juiz responsável pelo caso.

A área que volta a leilão tem nascentes, pistas de pousos, áreas para plantio, pastos. Abrigava duas das mais valiosas fazendas da Boi Gordo. No leilão, preços e condições agora são atípicos para um caso de falência. Levam em conta até o fato de o Brasil estar em recessão. A venda permite deságio de até 40% em relação ao valor total da área inteira, avaliada em cerca de R$ 500 milhões. Na prática, quer dizer que pode ser arrematada por R$ 300 milhões.

A imensa propriedade agora está subdivida em 31 lotes. “Usamos até tecnologia de satélite para que cada lote estivesse legalmente organizado em conformidade com a lei ambiental e de acordo com a sua vocação, voltado para a agricultura, para a pecuária ou para o mercado de compensação ambiental, no caso dos lotes que tem um maior volume de reservas”, diz Gustavo Henrique Sauer de Arruda Pinto, síndico da massa falida. “Por causa desse detalhamento, quem levar a área inteira terá a opção de vendê-la parceladamente”, diz Pinto.

Ele lembra que, para atrair os investidores para o leilão, foram feitos road shows e, no Canal do Boi, especializado em temas rurais, conseguiram veicular uma reportagem com detalhes da propriedade. O leilão será online. Se falhar, no dia 18 ocorre nova oferta, online e presencial. Se der errado, mais uma tentativa será feita em 13 de setembro. Mas desta vez, os 31 lotes, com cerca de 6 mil hectares, serão ofertados separadamente, com deságios entre 30% e 40%. A outra novidade é que o pagamento pode ser feito parceladamente, com uma entrada de 20%, mais cinco parcelas semestrais. “Flexibilizamos para que até o pagamento fosse ajustado às práticas de mercado de terras agrícolas”, diz o promotor Eronides dos Santos, que acompanha o caso.

Vitória. Chegar a esse estágio, numa falência como a da Boi Gordo, é considerado uma grande vitória. Se o megapregão ainda for bem sucedido, não apenas vai arrecadar fundos para iniciar o pagamento dos investidores lesados, como também tende a criar uma alternativa para agilizar a venda de ativos de falências.

Não importa se envolvendo pequenos negócios anônimos ou empresas emblemáticas, como consórcio Garavelo, Mesbla, Mappin ou Transbrasil, a falência é seguida de um périplo sem fim. “O processo de falência é tão moroso que é ruim para o credor, para o juiz, para todo mundo”, diz Fernando Bilotti Ferreira, sócio do Santos Neto Advogados, que atua em casos de falência datados de 1982, 1995. Ferreira nunca atuou no caso da Boi Gordo, mas acompanha com atenção os lances recentes.

“Não se costuma reduzir o valor dos bens, parcelar pagamento: agora tem um trabalho diferenciado que pode virar exemplo.” Segundo ele, a falência da Boi Gordo é um caso emblemático até nos detalhes mais banais. “A gente sempre lembra que teve Antonio Fagundes, o protagonista da novela o Rei do Gado, como garoto propaganda, e agora brincamos que o caso começou a ter solução quase junto com a reapresentação no Vale a Pena Ver de Novo”.

O ESQUEMA

Trajetória

A Fazendas Reunidas Boi Gordo teve vida longa. Começou a operar em 1988. Só entrou em concordata em 2001, já em meio às acusações de que criara um esquema de pirâmide. No meio da crise, o fundador Paulo Roberto Andrade conseguiu vender o controle, em 2003, para o grupo Golin. Em 2004, faliu. 

Rei do Gado

Parte do sucesso do esquema pode ser atribuído à estratégia de divulgação adotada nos anos 90. A empresa contratou o ator Antonio Fagundes para anunciar o investimento quando era protagonista da novela o ‘Rei do Gado’. No intervalo da novela, o comercial dizia: "Quem tem cabeça investe em gado". 

Número superlativos

Os números da falência na Boi Gordo são superlativos por qualquer aspecto que se olhe. São 32 mil investidores lesados. O processo de falência se arrasta há 12 anos. A dívida, com juros e correção monetária, já bateu em R$ 4 bilhões. Estima-se que cerca de 400 advogados envolveram-se no caso. 

Pirâmide 

O investimento oferecia até 42% de retorno em 18 meses, o tempo previsto para se engordar um boi. Ocorre que, na verdade, os pagamentos dos investidores mais antigos eram cobertos pela entrada de novos. Não havia bois suficientes para sendo engordados para garantir a remuneração prometida. 

Reforço futuro

No ano passado, a Justiça bloqueou cerca de R$ 3 bilhões em bens do grupo Golin, que também serão utilizados para reembolsar os credores. 

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