Mudança em Refis reduz arrecadação de R$ 13,3 bi para R$ 420 milhões

Previsão inicial da área econômica era arrecadar R$ 13,3 bilhões este ano com o programa de refinanciamento de dívidas

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli - O Estado de S.Paulo

Você pode ler 5 matérias grátis no mês

ou Assinar a partir de R$1,90

Você pode ler 5 matérias grátis no mês

ou Assinar a partir de R$1,90

Você leu 4 de 5 matérias gratuitas do mês

ou Assinar a partir de R$1,90

Essa é sua última matéria grátis do mês

ou Assinar a partir de R$1,90

BRASÍLIA - As mudanças feitas pelo deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG) no texto do novo Refis proposto pelo governo colocaram em risco o cumprimento da meta fiscal deste ano e podem impor um perdão de 73% da dívida a ser negociada no programa de parcelamento. O levantamento do impacto feito pela área técnica do Ministério da Fazenda, obtido pelo Estadão/Broadcast, mostra que a arrecadação prevista para 2017 pode derreter, passando de R$ 13,3 bilhões para apenas R$ 420 milhões. 

O tamanho do buraco não só surpreendeu negativamente a equipe econômica como criou um imbróglio político para o governo, que precisará reverter o estrago feito no relatório em meio à busca de votos para barrar a denúncia contra o presidente Michel Temer.

Os técnicos começaram a trabalhar nos cálculos na quinta-feira à noite, após a divulgação do relatório final na página de acompanhamento da Medida Provisória (MP) 783, que instituiu o Refis. O sentimento é de indignação com a nova tentativa do relator de emplacar descontos praticamente integrais nos encargos da dívida.

O deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG) Foto: Dida Sampaio/Estadão

Uma fonte da área econômica que trabalhou no levantamento afirma que as mudanças são absurdas e mostram irresponsabilidade do relator. A avaliação é de que não se trata mais de um programa de resolução de passivos, mas sim de perdão de dívidas, uma vez que até débitos sonegados ou gerados por fraude poderão ser parcelados. O impacto final assustou os técnicos, que nos cálculos preliminares previam que a arrecadação diminuiria a R$ 3 bilhões neste ano.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse nesta sexta-feira, 14, à tarde em evento no Rio que as receitas com o Refis, nos moldes do relatório, ficariam “bem baixas”, próximas a R$ 1 bilhão. Mas a conta final ficou ainda menor, abaixo dos R$ 500 milhões.

Quem são os principais personagens da economia brasileira?

1 | 7 O Ministério da Fazenda é o órgão responsável por administrar as contas do governo. Através dele são planejadas e postas em prática as políticas econômicas nacionais. Além da administração dos recursos públicos, é de responsabilidade do ministério criar e fiscalizar se estão sendo postas em prática as regras referentes às operações de crédito, arrecadação de impostos, tarifas públicas, seguros, consórcios e previdência privada. O atual ministro, responsável por gerir essas contas e auxiliar o presidente, é o engenheiro Henrique Meirelles, que também já ocupou o cargo de Presidente do Banco Central. A indicação do ministro é feita pelo presidente da República. Foto: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
2 | 7 O Banco Central é o órgão responsável pela política monetária do País. Promover ações para controlar a inflação e manter a estabilidade do sistema bancário são as suas responsabilidades. O Banco é vinculado ao Ministério da Fazenda e cabe a ele determinar a taxa básica de juros - a Selic - e efetuar operações de compra e venda de moedas para manter a solidez do real. Quem ocupa o cargo de presidente do Banco Central é o economista Ilan Goldfajn, que veio do cargo de economista-chefe do banco privado Itaú. O cargo também é indicado pelo presidente da República Foto: Adriano Machado|Reuters
3 | 7 O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social é uma autarquia que financia projetos que contribuem para o desenvolvimento do País, seja em obras de infraestrutura ou investimentos na área da indústria, agricultura e comércio. O atual presidente do BNDES é o economista Paulo Rabello de Castro, que anteriormente ocupava a presidência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A indicação do cargo é feita pelo Presidente da República. Foto: Felipe Rau/Estadão
4 | 7 O Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão é responsável por planejar e coordenar as políticas de gestão da administração pública. Ou seja, controlar orçamentos, analisar a viabilidade e os custos de projetos e liberar fundos para os estados. O atual ministro da pasta é o economista Dyogo Oliveira, que também já atuou como secretário-adjunto na Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Foto: André Dusek/Estadão
5 | 7 A Petrobrás é uma empresa de capital aberto (ou seja, tem ações na Bolsa de Valores) que tem como acionista majoritário do Governo, por isso, seu presidente também é indicado pelo presidente. O atual ocupante do cargo é o engenheiro Pedro Parente. Foto: Antonio Lacerda|EFE
6 | 7 A Caixa é um banco que funciona sob a forma de empresa pública do Governo Federal e vinculada ao Ministério da Fazenda. Seu presidente também é indicado pelo poder executivo e atualmente quem ocupa o cargo é o advogado Gilberto Occhi. Foto: Dida Sampaio|Estadão
7 | 7 O Banco do Brasil também é uma instituição financeira vinculada ao governo. Constituída na forma de sociedade mista, a União é responsável por 54% das ações. Atualmente, quem está na presidência da instituição é o economista Paulo Rogério Caffarelli, que já foi vice-presidente do BB e secretário executivo do Ministério da Fazenda. Foto: Evaristo Sa/AFP

Orçamento. As mudanças ainda trazem uma dor de cabeça adicional à equipe econômica, que contava com os recursos do Refis para conseguir liberar, na semana que vem, parte do Orçamento que está bloqueada justamente por falta de receitas. Quando lançou o primeiro Programa de Regularização Tributária (PRT), o governo incluiu uma previsão de arrecadação de R$ 8 bilhões. Diante da nova MP, a intenção era incluir nas estimativas os R$ 5,3 bilhões adicionais, o que agora pode não ocorrer.

A área econômica se sente traída pelos parlamentares, pois a MP 783 foi resultado de acordo amplamente negociado com o Congresso. O que se viu, no entanto, foi uma atuação rápida dos deputados e senadores para elaborar o relatório. Houve apenas uma audiência pública para debater a medida, e o parecer foi lido e aprovado já na quarta reunião da comissão mista, em sessão que durou menos de 50 minutos.

++ Novo Refis prevê desconto de até 99% em multas e juros de dívidas de empresas

O texto apresentado inicialmente por Cardoso Jr. não trazia as principais mudanças, que mexeram, por exemplo, no valor dos descontos. Essas alterações foram incluídas por meio de destaques (mudanças específicas) acatados pelo relator, sem detalhamento do conteúdo nem votação pelo plenário. 

Os parlamentares têm interesse no Refis, pois muitos deles têm empresas com dívidas tributárias, como já divulgou a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Técnicos do governo apontam que Cardosos Jr. legisla em causa própria porque é dono de empresas que possuem dívidas com a União. A reportagem ligou diversas vezes para o celular do deputado, mas não foi atendida.

++ Refis beneficia igrejas e times de futebol

O impacto das mudanças sobre a arrecadação é grande, porque o relator elevou os descontos máximos sobre juros e multas para 99%, na modalidade em que o contribuinte, depois da entrada de 20% da dívida este ano, paga o restante em parcela única em janeiro de 2018. Ao mesmo tempo, ele tirou a atratividade dessa modalidade, pois dá descontos pouco menores, de 90% e 85% para pagamentos parcelados em 145 e 175 meses, respectivamente.

O deputado ainda estendeu a um maior número de empresas o benefício de pagar uma entrada menor que os 20%. Antes, podiam acessar esse recurso contribuintes com dívidas de até R$ 15 milhões, mas essa referência aumentou dez vezes, para R$ 150 milhões. A alíquota especial de entrada também foi reduzida de 7,5% para 2,5%. Tudo para exigir menos dos devedores.

++ Congresso aprova a Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2018

O impacto sobre a arrecadação do governo é maior porque o relator reintroduziu a modalidade que prevê a possibilidade de pagar uma entrada de 24% da dívida parcelada em 24 meses e abater o restante com créditos fiscais. Se todas essas mudanças forem aprovadas pelos plenários da Câmara e do Senado, o Ministério da Fazenda vai recomendar o veto da medida. / COLABORARAM DANIELA AMORIM E FERNANDA NUNES, DO RIO

 

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato