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Meirelles quer blindar comando da Caixa

Partidos indicaram 50 nomes, mas ministro quer executivos de fora para cargos-chave

Murilo Rodrigues Alves/BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2016 | 17h00

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, quer blindar um quarto das vice-presidências da Caixa Econômica Federal, para manter o controle sobre as áreas que considera o “coração” do banco. Em vez de nomes indicados por partidos políticos, Meirelles quer colocar executivos de fora, que já trabalharam em instituições privadas, nas áreas de finanças, riscos e de gestão de ativos de terceiros. Essa última administra o bilionário fundo de investimento que usa parte do FGTS para aplicar em infraestrutura.

O loteamento da Caixa tem servido para saciar a sede dos partidos aliados por cargos, mas também alimenta a disputa entre eles. O ministro terá de enfrentar o apetite por cada um dos 12 cargos. Foram indicados à equipe do governo do presidente em exercício Michel Temer mais de 50 nomes para ocupar essas áreas, segundo fontes a par das negociações.

A maior parte dos indicados, no entanto, não tinha experiência alguma na área bancária. Outros não cumpriam os requisitos da nova lei das estatais sancionada pelo presidente. Entre as exigências estão: ter atuado dez anos em empresas do setor ou quatro anos em bancos concorrentes e ainda não ter sido dirigente de partido e envolvido em campanhas eleitorais nos últimos três anos. Segundo fontes, apenas por volta de dez dos indicados se encaixariam no perfil exigido.

Para manter a posição de escolher esses vices, Meirelles tem usado o argumento que consentiu no nome de Gilberto Occhi para presidente da Caixa mesmo sempre tendo defendido um executivo do mercado privado para o lugar dele. Ex-ministro de Cidades e da Integração Social da presidente afastada Dilma Rousseff e funcionário de carreira da Caixa, Occhi foi indicação do PP, que ficou com o cargo em troca dos votos pela abertura do processo de impeachment de Dilma na Câmara.

A atual diretoria da Caixa é formada por indicados pelo PT, PMDB e PP. Alguns cargos são ocupados interinamente por funcionários de carreira do banco depois que as indicações políticas deixaram a instituição. É o caso, por exemplo, da vice-presidência de Operações Corporativas, atualmente comandada por Lucas José Palomero. O cargo foi de Roberto Derziê de Sant’Anna, indicado pelo PMDB, que deixou o banco para trabalhar como braço direito de Temer na época em que o vice também atuou na articulação política. Derziê é um nome dado como certo para voltar ao banco na próxima dança das cadeiras.

A vice-presidência de Riscos também está com um interino, Fábio Soares da Silva, desde abril. A vaga já foi de Raphael Rezende Neto, entre 2011 e 2014. Rezende Neto voltou ao banco com a chegada de Occhi e agora é o novo presidente da Caixa Seguridade.

As outras duas áreas sensíveis – Finanças e Gestão de Ativos de Terceiros – ainda estão com Márcio Percival e Marcos Vasconcelos, respectivamente, mas a saída dos dois é dada como certa. Eles não são funcionários de carreira da Caixa e entraram no banco ainda com a chefia do petista Jorge Hereda. Depois, foram mantidos pela sucessora, também do PT, Miriam Belchior.

A VP de Gestão de Ativos de Terceiros é responsável pelo FI-FGTS, fundo que usa parte dos recursos dos trabalhadores para investir em infraestrutura. O fundo passou a ser alvo das investigações da Lava Jato depois que o ex-vice-presidente do banco, Fábio Cleto, delatou esquema de propina para receber aportes do FI-FGTS. Cleto era membro do comitê que decide os investimentos do fundo como representante da Caixa. Ele ganhou o cargo de VP com as bênçãos do deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e só foi demitido depois que o ex-presidente da Câmara aceitou abrir o processo de impeachment de Dilma. Para o lugar de Cleto está a interina Deusdina dos Reis Pereira.

O PMDB ainda responde por, pelo menos, outras três áreas: Tecnologia, com Joaquim Lima de Oliveira; Negócios Emergentes, com Fábio Lenza; e Gestão de Pessoas, com Marcos Fernando Fontoura dos Santos. O partido deve permanecer com o mesmo número de indicações, mas as áreas poderão ser modificadas. Com o PP, estão as áreas de Governo (Paulo José Galli) e de Habitação (Nelson Antônio de Souza), que foi ocupada por muito tempo por indicados do PT.

“Vamos ter de conviver com essa situação, mas sempre com o objetivo de que haja profissionais técnicos, independentemente da sua filiação, da sua vinculação e tudo mais. O grande interesse, inclusive da classe política, é que se coloque um profissional que possa desempenhar melhor seu papel na instituição”, disse Occhi ao Estado ao ser questionado se indicações políticas não comprometem o desempenho do banco.

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