Meirelles:'Nada pode me distrair da economia brasileira'

Presidente do Banco Central reafirma que não será candidato a vice -presidente da Repúlica em 2010

Daniel Galvão, da Agência Estado,

17 de dezembro de 2009 | 12h41

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, disse nesta quinta-feira, 17, que nada pode "distraí-lo do projeto da economia brasileira", ao reafirmar que não tem nenhuma pretensão a ser candidato a vice-presidente da República numa eventual chapa com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Meirelles deu entrevista ao programa "Bom Dia Ministro", coordenado pela Secretaria de Imprensa da Presidência e transmitido ao vivo pela TV a cabo NBR, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

 

"O meu compromisso com o presidente Lula está totalmente focado e dedicado ao BC até o momento de uma tomada de decisão sobre se eu ficaria no BC até dezembro de 2010 ou se sairia para concorrer a um cargo eletivo", afirmou. "O prazo é abril. Até abril, não estou pensando nada que não seja 100% Banco Central do Brasil", afirmou. "O meu foco no momento é o BC."

 

De acordo com Meirelles, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu que ele fique no cargo pelo menos até o dezembro de 2010. "É importante levar isso em consideração, nada hoje pode me distrair do projeto da economia brasileira", declarou. O debate eleitoral, disse, ainda é "prematuro" e a decisão da candidatura a vice-presidente será tomada pelo PMDB, seu partido, por meio das instâncias partidárias e pela convenção nacional, "num momento adequado". Meirelles declarou que sua prioridade, hoje, é assegurar que a economia brasileira tenha "um excelente desempenho em 2010, com aumento do emprego e crescimento do poder de compra da população".

 

Sucessão no BC - Para Meirelles o perfil do próximo presidente do BC, caso ele saia do cargo, é "uma decisão do presidente da República". Mas, continuou, "não tenho dúvidas de que é (o perfil) de alguém comprometido com a estabilidade da economia brasileira". "Caso eu fique no BC até 2010 e, portanto, essa escolha seja feita pelo próximo presidente, também acredito que se mantém um padrão de alguém comprometido com a estabilidade, porque inflação mantida baixa e controlada permite ao Brasil acumular reservas internacionais elevadas, além de queda dos juros reais da economia", declarou.

 

Para Meirelles, tudo isso que ele mencionou fez com que o número de empregos aumentasse - "25 milhões de brasileiros passaram a fazer parte da classe média, um número enorme de pessoas cruzou a linha de pobreza para cima, o padrão de vida melhorou muito, o poder de compra também, a capacidade de arrecadação do governo, os programas sociais, o salário mínimo, tudo fez melhorar o padrão de vida do brasileiro". "Não há margem para voltar atrás", afirmou. "Tenho certeza de que os próximos governantes estão comprometidos com a manutenção da estabilidade de preços e os mercados cambial e fiscal."

 

Inflação - Meirelles disse nesta quinta-feira que, se surgirem pressões de preços, a autoridade monetária estará "preparada" para tomar as medidas necessárias "a tempo". Meirelles afirmou que a população pode ficar "tranquila" porque o BC tem o "compromisso" com a meta de inflação de 4,5% e atua para que seja atingida.

 

"Tem tido num intervalo de tolerância, mas o BC tem cumprido a meta, seja no controle das taxas do BC, seja através da política monetária adequada e da política de câmbio flutuante", afirmou. Conforme Meirelles, no entanto, há sempre a possibilidade de algum desequilíbrio, algum descompasso, entre a capacidade do País de produzir e a demanda do consumo, o que pode causar pressão de subida de preços. "Nós, portanto, julgamos que o risco está sempre presente, a economia está crescendo muito e não há dúvida de que, em algum momento, surjam pressões de preço." Se aparecerem, reafirmou, "estaremos preparados". "O BC está atento e, certamente, tomará qualquer medida que seja necessária para manter a estabilidade e inflação na meta, que é condição para que o País cresça forte", disse.

 

O presidente do BC disse também que "o povo brasileiro está atento para evitar que se transmita no Brasil um desequilíbrio que venha dos Estados Unidos". Meirelles disse que o governo toma todos os cuidados e providências necessárias para impedir consequências de "alguns desequilíbrios" e de eventuais bolhas causadas pela política monetária dos EUA. "Como os EUA têm de manter uma política monetária de expansão com taxas de juros baixas em função da crise, isso gera muito dinheiro nos EUA, a chamada liquidez, e alguns desequilíbrios, as chamadas bolhas, quando os preços de ações, moedas ou imóveis são um pouco inflacionados", pontuou.

 

Câmbio - O presidente do banco ressaltou que a administração federal "olha com muita atenção" e toma medidas compensatórias para o setor exportador. Meirelles lembrou que o BC tem comprado reservas para fazer com que o Brasil enfrente qualquer crise. Para ele, a desvalorização do dólar é consequência da "fraqueza da economia americana, da crise e das medidas tomadas pelas autoridades dos EUA para enfrentar a crise, com a injeção de recursos no mercado". Mas, ressalvou, o Brasil é o maior destino de investimentos no mundo. "É considerado um país que não só saiu da crise, mas saiu forte. Tem um futuro muito promissor, e isso é bom porque, para crescer, precisamos de investimentos."

 

Por outro lado, disse, essa entrada de investimentos também para a Bolsa de Valores faz com que o real se aprecie um pouco, e o dólar caia um pouco. "São dois fenômenos: de um lado, a fraqueza do dólar, e do outro, a força do Brasil. Não há dúvida de que isto cria um pouco mais de dificuldades para o setor exportador, mas o governo brasileiro está olhando com muita atenção", explicou. "Mas o BC evita excessivas distorções nas taxas - quando há excesso de entrada de recursos, o BC compra, quando não, não compra. Até já vendeu reservas para evitar distorções de preços", lembrou.

 

No entanto, ressalvou, "como tudo na vida há o lado positivo". O presidente da instituição financeira disse que as empresas brasileiras estão investindo muito, na medida em que o dólar está mais barato. De acordo com Meirelles, isso permite a compra de tecnologia e há uma maior capacidade de aquisição de equipamentos em função do real mais forte. "O que precisa é evitar desequilíbrio entre investimento e exportação. A tendência será de equilíbrio de todos esses fatores à frente."

Como de costume, Meirelles evitou fazer uma previsão para o câmbio em 2010. "Previsão de taxa de câmbio é sujeita a grande margem de incertezas. É uma coisa que estamos muito atentos, o BC continua comprando reservas para evitar grandes desequilíbrios no fluxo de capitais e fazendo outras medidas compensatórias também a médio prazo. Então, tende a estabilizar."

 

Crédito - O presidente mostrou-se otimista com a previsão de crescimento do mercado de crédito no próximo ano. Conforme Meirelles, o crédito continuará em alta e o valor para obtenção de empréstimos cairá. "Não há dúvida de que a trajetória da taxa de juros na ponta do empréstimo ainda é elevada, mas já foi muito mais no passado e está caindo nos últimos anos, como resultado da estabilização da economia", disse. 

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