Taba Benedicto/Estadão
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Melhor não

No Brasil, a atual situação indica que é melhor deixar a política industrial para o próximo governo

Luis Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2021 | 04h00

Não convém fazer desfeita do surto de otimismo que assola o mercado financeiro ultimamente. Aqui vale a analogia que Keynes fez com um concurso em que os participantes tentam adivinhar quais serão as 6 fotos mais bonitas de um conjunto de 100 imagens de pessoas. O vencedor terá que escolher não as fotos que ele, particularmente, considera mais bonitas, mas aquelas que ele pensa que a maioria dos participantes vai escolher. Cada investidor busca antecipar o que a massa dos investidores vai fazer. Contrariar o consenso é perigoso porque, nesse jogo, perde quem está certo na hora errada. 

Otimismo à parte, a realidade bate à nossa porta. Tomemos o caso da indústria. Em abril, a produção da indústria de transformação foi 40,2% maior que a de abril do ano passado. Na variação acumulada em 12 meses ante mesmo período anterior o número de abril foi o mais alto desde novembro de 2018. Há uma recuperação em curso. Oba. Mas a produção em abril de 2021 foi ainda 7,3% menor que a registrada em abril de 2004 (sim, há 17 anos a produção era maior).

O fato é que nos últimos anos a indústria brasileira derreteu. Como mostra estudo do Iedi (Um Ponto Fora da Curva, 2019), a desindustrialização brasileira foi não só prematura, como uma das mais intensas do mundo. A participação da indústria no PIB passou de 21,1% em 1980 para 11,9% em 2020 (a média global subiu nesse período). Estima-se que a indústria chinesa tenha crescido nos últimos 50 anos a uma média anual de 10%. O papel da indústria é estrategicamente relevante porque nesse setor há maiores ramificações produtivas na medida em que ele estimula múltiplos efeitos de encadeamento em várias atividades que participam da cadeia de produção. A correlação das variações trimestrais anualizadas do produto industrial com o PIB de 2000 a 2021 foi de 0,94, ante apenas 0,33 no caso da agropecuária.

O efeito multiplicador do crescimento industrial é mais denso e poderoso. Para quem ainda acha que o Brasil seria melhor se fosse uma fazenda de soja basta observar os números do PIB do primeiro trimestre. Sem as imprecisões do ajuste sazonal, o produto brasileiro no primeiro trimestre caiu 1% em relação ao último trimestre de 2020. Esta queda é o resultado conjunto de um recuo de 4,1% no setor de serviços, uma queda de 5,2% no PIB da indústria e, vejam só, um estupendo crescimento de 100,8% no PIB da agropecuária (é sempre assim no primeiro trimestre de cada ano). Mesmo este crescimento gigantesco não foi o bastante para segurar a queda do PIB. O primoroso livro do economista Paulo Gala Complexidade Econômica (2017) oferece subsídios para entender por que a maior complexidade do setor industrial ajuda a explicar o progresso dos países.

Não é só a produção da indústria que vem definhando. A própria capacidade produtiva está sendo sucateada. Não é elegante cruzar dados de fontes diversas, mas se combinarmos a capacidade ociosa medida pela CNI com a produção industrial do IBGE teremos uma estimativa da capacidade máxima de produção. Entre 2013 e 2020 o potencial de produção industrial caiu 13,7%. 

Em um país comum, a forma usual de lidar com o problema da queda do dinamismo industrial é por meio de política públicas. Mesmo a Alemanha, bastião das ideias econômicas liberais, se rendeu ao avanço da indústria chinesa e definiu uma série de medidas de estímulo. O Brasil não é comum. Nas atuais circunstâncias, mesmo que o governo aceitasse a necessidade de uma política industrial, o mais provável é que caísse, fraco que é, na teia de interesses setoriais que preconizam mais proteção e novas sinecuras. Melhor deixar esta tarefa para o próximo presidente. Chegamos em uma situação em que o governo pode errar menos quando não faz nada. 

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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