Melhora clima de investimentos estrangeiros para o Brasil

O clima para investimentos estrangeiros no Brasil segue firme numa trajetória de melhora gradual, iniciada há cerca de uma década com o processo de privatizações. Mas o país ainda apresenta problemas regulatórios e burocráticos, entre outros, que ainda limitam a atração de um maior aporte de recursos. O país precisa de regras mais claras, mais reformas econômicas, menos ingerência do governo nas agências regulatórias e um crescimento sustentado para atrair um fluxo mais ambicioso de recursos nos próximos anos. Esse foi o tom de um seminário promovido quinta-feira pela Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil na capital britânica que reuniu cerca de quarenta investidores, consultores e diplomatas. Como observou o diretor do banco Lloyds TSB, David Thomas, já vão longes os tempos nos quais a inflação desenfreada e o risco quase permanente de instabilidade financeira atemorizava os investidores interessados em desembarcar no país. A livre flutuação cambial e a postura econômica ortodoxa dos dois primeiros anos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva serviram para reforçar esse clima de maior confiança com o país. "O Brasil é hoje um dos países mais competitivos do mundo", disse Thomas. O projeto das PPPs (Parcerias Público-Privadas), inspirado em boa parte no modelo inglês, gerou interesse entre os britânicos que participaram do evento. Mas ficou claro que há detalhes considerados fundamentais, como o da arbitragem nos projetos, que somente serão regulamentados após a aprovação das PPPs no Congresso Nacional. "E na maioria das vezes, o diabo está nos detalhes", ironizou um consultor britânico, após a palestra. Michael Royster, sócio do escritório de advocacia Steel, Hector & Davis, disse que o setor de transportes é um dos que mais apresentam oportunidades de investimento. "O sistema rodoviário fora do estado de São Paulo é um desastre", disse Royster. "O país sabe disso, sabe que tem de melhorar suas estradas, ferrovias, cabotagem para crescer e, por isso, as PPPs são essenciais." Ele salientou também que o governo petista abandonou de vez sua postura mais linha mais de esquerda, o que considera positivo. "Aquele PT de camisetas vermelhas, que pensa que a queda do muro de Berlim é um boato infundado, acabou", disse. Royster, no entanto, não enumerou apenas elogios. Ele disse que o desemprego no país ainda está muito elevado e que a Petrobrás, ao atrasar um reajuste nos preços dos combustíveis justificado pela alta dos preços do petróleo, mostra que está sob maior influência do governo do que na gestão anterior. O atual governo, segundo ele, também parece "não estar tão contente com o grau de independência" das agências regulatórias. Segundo Royster, os investidores estrangeiros que têm condições de realizar financiamentos fora do país, em moeda forte", são "privilegiados" por causa dos altos juros praticados no Brasil. Alguns participantes do seminário reclamaram das "análises injustas e preconceituosas" sobre o Brasil que ainda circulam no exterior. "As idéias de algumas pessoas não mudam, não tem jeito", disse o executivo-chefe do HSBC no Reino Unido, Michael Geoghegan. "Você não pode entender um país se não conhecê-lo bem, se não o tiver visitado." Segundo alguns participantes, um dos freios para os investimentos britânicos no Brasil é a barreira representada pelo idioma.Como exemplo, o diretor executivo da Britcham, Philip Hamer disse que a maioria dos quinze empresários brasileiros que integram uma missão comercial brasileira que está visitando a Grã-Bretanha nesta semana fala muito mal o inglês. "Antes de sair do Brasil, eles diziam que dominavam o idioma, mas estamos percebendo aqui, nos contatos com empresas inglesas, que não", disse Hamer. "Isso obviamente sempre atrapalha um pouco os negócios." Mas, como observou um diplomata brasileiro, para um país cujo os temas dominantes até recentemente era o temor inflacionário, a volatilidade cambial e o risco de moratória, preocupações com o idioma podem ser considerados "um upgrade na nota de risco do país".

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