Melhora estrutural deve manter dólar em queda, dizem economistas

O dólar deve suavizar a queda frente ao real em 2010, influenciado pelo mercado externo, mas pode caminhar a níveis muito mais baixos com a melhora dos fundamentos da economia brasileira no longo prazo, disseram economistas nesta terça-feira.

REUTERS

15 de dezembro de 2009 | 16h11

"Taxas de câmbio e juros impensáveis hoje vão se manifestar no futuro", disse Gustavo Franco, sócio da gestora de recursos Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central em seminário sobre câmbio em São Paulo.

Segundo Franco, o comportamento do dólar responde no longo prazo a uma melhora estrutural da economia. O grau de investimento concedido nos últimos anos pelas principais agências de classificação de risco chancela as reformas realizadas pelo Brasil, que deve ver uma depreciação ainda maior do dólar caso a avaliação fique mais positiva no futuro.

"É impossível imaginar que, ao deixar de ser o país campeão mundial de juros, a moeda brasileira não vá se fortalecer", disse Franco a jornalistas após o evento. Em 2009, o dólar acumula queda de cerca de 25 por cento, e tem sido cotado por volta de 1,75 real.

Para o próximo ano, no entanto, a avaliação é a de que o dólar não deve fugir do atual patamar. Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria projeta 1,75 real para o fim do próximo ano, considerando a volatilidade que a retirada do estímulo monetário deve provocar nas principais economias e também uma piora do déficit em transações correntes.

Ela também destacou que a recente apreciação do real não foi um fenômeno exótico, relacionando a moeda brasileira a uma série de divisas de perfil semelhante --de países exportadores de commodities e com câmbio flutuante: Chile, África do Sul, Noruega, Austrália, Nova Zelândia e Canadá.

PAPEL DO GOVERNO

Outros economistas concordaram com Gustavo Franco de que a percepção de risco sobre o país é um dos principais fatores domésticos sobre a formação da taxa de câmbio.

Gustavo Loyola, sócio da Tendências e também ex-presidente do BC, chegou a dizer em tom de brincadeira que uma saída para o governo desvalorizar o real e incentivar a indústria seria piorar os fundamentos econômicos.

Os palestrantes, porém, discordaram sobre a conveniência de instrumentos de controle cambial. Franco disse que não se pode dizer que a taxa de 2 por cento sobre a entrada de capital em ações e renda fixa não tenha surtido efeito, porque é impossível definir um cenário para a hipótese de o imposto não ter sido instituído em outubro.

O professor da PUC-Rio Marcio Garcia, no entanto, avalia que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não tem "base nenhuma" para defender o imposto, que também foi criticado por Ilan Goldfajn, economista do Itaú.

Segundo ele, a poupança externa será chave para sustentar o crescimento ao longo dos próximos anos, financiando o déficit cada vez maior nas contas correntes.

Os economistas também divergiram sobre o acúmulo de reservas pelo BC. Para Garcia, da PUC-Rio, as compras têm aumentado o peso de operações compromissadas de curtíssimo prazo sobre a dívida pública.

A operação realizada após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) enxugou mais de 300 bilhões de reais do mercado, a maior parte usada pelo BC para comprar dólares.

Franco, no entanto, defendeu o "seguro" anticrise que as reservas representam. Já Nathan Blanche, sócio da Tendências, apontou o custo das atuais intervenções no mercado à vista e defendeu a volta dos swaps cambiais reversos.

"O que o Brasil faz com as reservas (de quase 240 bilhões de dólares) é encher um copo d'água que já está cheio", disse.

(Reportagem de Silvio Cascione)

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