Melhorar o trivial não nos abre um futuro confiável

O resumo do quadro eleitoral é o seguinte: a turma da Dilma pré-festeja a vitória. Lula proclama que "Deus está com a gente" e o vice, Michel, grita que quer metade do governo. A turma do Serra, meio macambúzia com a trombada das pesquisas, resolve sair da retranca e pressionar o gol do adversário.

Marco Antonio Rocha, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Mas são dois times na sombra do Lula.

A turma da Dilma (desculpem não mencionar nomes de partidos, pois são apenas "turmas", ajuntamentos de pessoas para ganhar eleição) se alvoroça para saber como será o Ministério. E ela diz que o Ministério será, ao mesmo tempo, técnico e político. Nada de novo. A novidade é que, no PT, ministério tem de ter ideologia. Os "companheiros" técnicos, alguns de excelente nível, "aparelham" os Ministérios para imbuí-los de sua visão ideológica.

Essa turma promete aprofundar o trabalho de Lula. Não inovará, portanto. O trabalho de Lula foi dar continuidade a trabalhos iniciados em governos anteriores, com ênfase um pouco maior em alguns programas sociais.

Alguns analistas temem a vitória dessa turma. Acham que, na aliança governista, o projeto de poder absoluto e prolongado do PT se casa com a cupidez insaciável dos "grotões" da política pelo erário. Isso nos levaria a uma imitação da "ditadura perfeita" (expressão de Octavio Paz) que vigorou no México durante décadas sob o Partido Revolucionário Institucional (PRI). "Perfeita" porque se parecia com uma democracia, pois tinha eleições com diversos candidatos e até uma pálida oposição. No Brasil, o período dos governos militares também foi tido, por alguns analistas, como "ditadura perfeita". Havia alternância regular de chefes do governo (trocas de generais), eleições e até dois partidos concorrentes, o Arena e o MDB. Só que os militares brasileiros embarcaram em esquemas brutais de torturas e assassinatos contra militantes políticos, a conselho de "especialistas" em contrainsurgência americanos, cuja inépcia se revelou definitivamente no Afeganistão e no Iraque.

Em relação à turma do Serra, não há o temor de implantação de uma "ditadura perfeita". Teme-se o voluntarismo errático, que caracteriza o personagem, e a indefinição como método, que caracteriza o seu partido. Mas o que ele tem prometido e proposto é fazer mais e melhor do que Lula, até com o slogan da sua campanha: "O Brasil pode mais..."

O engraçado, portanto, é que os dois candidatos à Presidência se propõem a continuar melhorando o que o governo já faz. Na verdade o que todos os governos fazem ou tentam fazer, ou seja, acelerar o ritmo de realizações, de obras, de criação de empregos: mais prédios escolares, mais postos de saúde, mais estradas, vicinais e principais, mais energia, mais policiamento, mais cadeias, mais tribunais, mais transporte público, mais isso, mais aquilo, etc. e tal. Tudo isso é muito necessário. Mas quem for eleito vai fazer muito pouco disso, porque não terá dinheiro. O governo brasileiro gasta quase toda a sua receita com o funcionalismo e com os juros da dívida pública. Sobra pouquíssimo para investir. Quando precisa investir, pega dinheiro emprestado, o que aumenta a sua dívida e o pagamento de juros.

Por isso, é estranho que os candidatos não falem e não proponham coisas que Lula não fez, que não custam dinheiro e que são absolutamente necessárias para que o Brasil tenha, de fato, um futuro inspirador: a grande reforma do Estado brasileiro - das suas instituições, Legislativo e Judiciário; da sua política, partidos políticos e procedimentos; do seu sistema fiscal; do seu sistema educacional.

O Estado brasileiro entrou em pane. Sua ausência é quase geral, e sua pífia presença episódica só atrapalha quem quer produzir e se desenvolver. Basta sair às ruas e ver. Os bandidos não o temem; os funcionários públicos não lhe dão bola; a população não acredita nele; os sonegadores debocham dele; os professores, juízes, delegados, policiais, médicos do Sistema Único de Saúde fazem greve e não atendem aos apelos ou às ordens das supostas "autoridades"; as multas e intimações contra criminosos do trânsito se empilham nas repartições e eles continuam rodando e matando; crianças carentes rodeiam os semáforos, sem abrigo ou destino; aglomerados urbanos de tipo asiático se estendem pelas periferias das cidades, margens de córregos e pântanos; agressões catastróficas ao meio ambiente são praticadas à luz do dia; estelionatários do ensino armam arapucas para iludir jovens que sonham em progredir na vida. A lista poderia continuar por várias laudas.

A grande inovação de qualquer eleito seria reconstruir o Estado brasileiro nas suas atribuições fundamentais. O governo FHC inovou em pelo menos dois desafios: no combate à inflação crônica e no disciplinamento das contas públicas (em parte). Lula não inovou em nada do que desafiava e desafia o País. Evitou crises, sim, e melhorou o "trivial" do povão. Mas o "Brasil novo" que enche a fala de Dilma não tem nada de novo. Talvez um melhor atendimento de velhas carências. Mas não nos oferece um novo Estado, com um horizonte de esperança confiável, pois tudo pode mudar quando as instituições não são sólidas.

JORNALISTA

E-MAIL: MARCOANTONIO.ROCHA@GRUPOESTADO.COM.BR

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