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Meninos são superados por meninas na escola, aponta OCDE

Na universidade e no mercado de trabalho a distância só aumenta, concluem estudos estratégicos de centro de pesquisa

The Economist, O Estado de S. Paulo

06 de março de 2015 | 18h36

"É tudo uma questão que envolve os cérebros deles, seus corpos e algumas substâncias químicas", diz Sir Anthony Seldon, diretor do Wellington College, um internato britânico de elite. "Existe uma mentalidade entre eles segundo a qual ser inteligente e ter bom desempenho não é considerado bacana", indica Ivan Yip, diretor da Bronx Leadership Academy, de Nova York. Uma delas cobra 25 mil libras (US$ 38 mil) por ano e tem um clube de mergulho; a outra serve refeições subsidiadas à maioria dos alunos, entre os quais um quarto tem necessidades especiais. Mas, em ambas as instituições, o problema enfrentado é o mesmo: entre os adolescentes, as meninas estão deixando os meninos para trás.

Trata-se de algo que seria inimaginável dez anos atrás. Até os anos 1960, os rapazes passavam mais tempo e iam mais longe na escola do que as garotas, e tinham maior probabilidade de se formarem na universidade. Agora, tanto nos países desenvolvidos quanto em um número cada vez maior de países emergentes, o equilíbrio foi deslocado. 

Governantes que antes se preocupavam com a falta de confiança apresentada pelas meninas nas disciplinas científicas agora passam seu tempo acenando com exemplares de Harry Potter diante de garotos desanimados. 

A Suécia solicitou a realização de pesquisas envolvendo sua "crise dos meninos". A Austrália criou um programa de leitura chamado "Meninos, rapazes, livros e bytes". Em questão de duas gerações, uma lacuna entre os gêneros foi fechada, mas outra se abriu.

Questão de gênero. A inversão é apresentada num relatório publicado no dia 5 de março pela OCDE, um centro de estudos estratégicos voltado para os países ricos, com sede em Paris. O predomínio masculino se mantém, por pouco, nas disciplinas matemáticas: aos 15 anos, eles estão em média três meses letivos à frente das meninas. Nas disciplinas científicas, o resultado aponta um empate. Mas, na leitura, onde as meninas já estavam à frente há algum tempo, uma lacuna se abriu. Em todos os 64 países e economias envolvidas no estudo, o desempenho das meninas foi superior ao dos meninos. A distância média é de um ano letivo a mais.

A OCDE considera a alfabetização a habilidade mais importante entre as avaliadas, já que dela depende a continuidade do aprendizado. Como seria de se esperar, os meninos apresentam probabilidade 50% maior de fracassar nos testes de proficiência básica nas áreas da matemática, leitura e ciência. Sem nada que lhes estimule ou possibilite avançar nos estudos, os jovens desse grupo tendem a abandonar completamente o ensino.

Para ver por que meninos e meninas têm desempenho tão diferente na sala de aula, primeiro devemos observar o que fazem fora dela. Em média, as meninas de 15 anos dedicam cinco horas e meia por semana à lição de casa, uma hora a mais do que os meninos da mesma idade, que passam mais tempo jogando videogames e navegando na internet. 

Três quartos das meninas leem por prazer, enquanto pouco mais da metade dos meninos o faz. A proporção de leitura está caindo por toda parte conforme as telas atraem os olhos e os afastam das páginas, mas os meninos estão desistindo mais rapidamente. A OCDE descobriu que, entre os meninos que fazem tanta lição de casa quando a média das meninas, a lacuna entre os gêneros no quesito leitura caiu quase 25%.

Uma vez na sala de aula, os meninos anseiam pela hora de ir embora. Entre eles, descrever a escola como "perda de tempo" é duas vezes mais provável, e seus atrasos são mais frequentes. Assim como as professoras tinham dificuldade em convencer as meninas que a ciência não era apenas para homens, a OCDE agora insiste para que os pais e os governantes afastem os meninos de uma versão da masculinidade que ignora os feitos acadêmicos."Para os meninos, as pressões são diferentes", diz Yip. "Infelizmente, existe entre eles a tendência de atender a certas expectativas de (mau) comportamento."

O desdém dos meninos em relação à escola poderia ser menos irracional se houvesse bastante emprego para homens de baixa escolaridade. Mas essa época já passou. Talvez um pouco de ousadia ajude na matemática, onde a confiança desempenha um papel importante na liderança dos meninos (embora às vezes se converta em delírio: 12% dos meninos disseram à OCDE que conheciam o conceito matemático de "escalonamento subjuntivo", pergunta capciosa que tapeou apenas 7% das meninas). Mas sua falta de autodisciplina leva os professores à loucura.

Talvez por serem às vezes tão insuportáveis, os meninos acabam sendo com frequência desvalorizados. A OCDE descobriu que desempenho dos meninos é bem melhor nos testes anônimos em relação a avaliação dos professores. A diferença em relação às meninas na leitura é 33% menor, e a lacuna na matemática - com os meninos já na frente - aumentou ainda mais. Em outra descoberta que indica certa parcialidade por parte dos professores, a probabilidade de repetir de ano é maior entre os meninos, mesmo quando sua habilidade é igual à das meninas.

O que está por trás dessa discriminação? Uma possibilidade é o fato de os professores valorizarem os alunos que demonstram boas maneiras e interesse em aprender, e mantêm-se longe das brigas - características mais comuns entre as meninas. Em alguns países, a pontuação acadêmica pode ser rebaixada em decorrência do mau comportamento. Outra  possibilidade é a de as mulheres, que compõem 80% do total de professores primários e quase 70% dos professores do ensino fundamental I, favorecem as alunas do mesmo sexo, assim como já observamos homens em cargos de chefia beneficiando outros homens sob seu comando. Em alguns lugares, o sexismo é consagrado na lei: em Cingapura, os meninos ainda são castigados com vergalhos, enquanto as meninas são poupadas.

Alguns países apresentam um ambiente no qual os meninos podem ter desempenho melhor. Na América Latina, a lacuna entre os gêneros é em geral menor, com os meninos de Chile, Colômbia, México e Peru menos atrás das meninas do que em outros países. Mas, por estranho que possa parecer, isso sempre é acompanhado de uma lacuna maior nas disciplinas matemáticas, em favor dos meninos. O contrário também é verdadeiro: Islândia, Noruega e Suécia, que conseguiram colocar as meninas em pé de igualdade com os meninos na matemática, enfrentam lacunas preocupantemente grandes quando o assunto é leitura. Desde 2003, quando a OCDE realizou seu estudo anterior, os meninos de poucos países melhoraram na leitura, e as meninas de vários países reduziram a lacuna na matemática. Nenhum país conseguiu ambas as coisas.

Para o alto e avante. O domínio educacional das meninas persiste após a escola. Até há poucas décadas, os homens eram claramente a maioria entre os universitários de praticamente todos os países (ver gráfico 2),em particular nos cursos avançados, na ciência e na engenharia. Mas, com a expansão do ensino superior em todo o mundo, as matrículas de mulheres aumentaram a um ritmo duas vezes superior do que as dos homens. Na OCDE, as mulheres representam agora 56% dos estudantes matriculados, ante 46% em 1985. Já em 2025 essa proporção pode aumentar para 58%.

Até nos poucos países da OCDE em que as mulheres são minoria no campus, seus números estão aumentando. Enquanto isso, muitos outros, incluindo Estados Unidos, Grã-Bretanha e partes da Escandinávia, têm 50% mais mulheres do que homens nos campi. Em muitas universidades americanas de elite, o número é mais equilibrado. Acredita-se que seus obscuros critérios de admissão são relaxados para os homens.

A feminização do ensino superior foi tão gradual que, por muito tempo, o fenômeno passou despercebido. De acordo com Stephan Vincent-Lancrin, da OCDE, que participou da publicação de um estudo de 2008 apontando o quanto o processo tinha se aprofundado, as pessoas "não conseguiam acreditar".


As mulheres que frequentam a universidade têm maior probabilidade de se formar do que seus pares masculinos, e costumam obter notas melhores. Mas homens e mulheres tendem a estudar assuntos diferentes, com muitas mulheres optando por cursos nas áreas do ensino, saúde, artes e humanidades, enquanto os homens procuram computação, engenharia e ciências exatas. Na matemática as mulheres estão se tornando quase tão numerosas quanto os homens; nas ciências biológicas, ciências sociais, administração e direito, elas já estão à frente.


As mudanças sociais fizeram mais para incentivar as mulheres a entrarem para o ensino superior do que qualquer política deliberada. A pílula anticoncepcional e o declínio no número médio de filhos, somados ao casamento mais tardio e subsequentes gestações, facilitaram a entrada das mulheres casadas na força de trabalho. Conforme mais mulheres foram trabalhar, a discriminação se tornou menos aguda. As meninas perceberam o propósito de estudar uma vez que esperou-se delas que tivessem carreiras. O aumento no número de divórcios sublinhou a importância de poder se sustentar. Atualmente, as meninas de quase todos os lugares parecem ser mais ambiciosas do que os meninos, tanto academicamente quanto em suas carreiras. É difícil acreditar que, nos EUA da primeira metade do século XX, cerca de metade das ocupações era vetada às mulheres casadas.

Assim, será que as mulheres estão agora se encaminhando para se tornarem o sexo dominante? O livro de Hanna Rosin, The End of Men and the Rise of Women, publicado em 2012, defende que, ao menos nos EUA, as mulheres estão na frente não apenas no ensino, mas também na profissão e na sociedade. Os governantes de muitos países se preocupam com a possibilidade de uma crescente subclasse de homens de baixa escolaridade. Isso deveria preocupar também as mulheres: no passado, elas em geral se casaram com homens de seu grupo social ou de grupos mais acima. Se esses se tornarem raridade, muitas mulheres terão de se casar com membros de grupos mais abaixo, ou desistir do casamento.

De acordo com a OCDE, o retorno sobre o investimento num diploma é maior para as mulheres do que para os homens em muitos países, mas não em todos. Na America PayScale, empresa que analisa dados de renda, foi descoberto que o retorno sobre o investimento num diploma universitário é mais baixo para as mulheres do que para os homens, ou, na melhor das hipóteses, igual ao deles. Embora enquanto grupo as mulheres estejam melhor qualificadas, elas ganham cerca de três quartos do salário pago a um homem. Um dos motivos é a escolha da área de estudos: o ensino, as ciências humanas e o serviço social pagam menos do que a engenharia ou a ciência da computação. Mas pesquisas acadêmicas mostram que as mulheres se preocupam menos do que os homens com o salário após a graduação, indicando que um retorno financeiro mais alto não seria a principal motivação para buscarem se aprofundar no ensino.

Nos níveis mais elevados das profissões e empreendimentos, as mulheres continuam sendo uma raridade. Numa inversão do padrão observado na escola, os ensaios e exames anônimos realizados nas universidades, que não identificam o gênero do aluno, protegem as mulheres da avaliação enviesada. Mas, no ambiente de trabalho, "os padrões tradicionais se impõem de maneiras milagrosas", disse Elisabeth Kelan, da Faculdade de Administração Cranfield, na Grã-Bretanha. Homens e mulheres entram para as áreas da saúde e do direito em números aproximadamente iguais, mas, passados 10-15 anos, muitas mulheres escolhem carreiras menos ambiciosas ou abandonam o trabalho para passar tempo com os filhos. Enquanto isso, os homens avançam na hierarquia conforme qualificações obtidas anos atrás perdem importância, e personalidade, ambição e experiência passam a importar mais.

Último bastião. Durante muito tempo foi dito que, como historicamente as mulheres estariam subrepresentadas no ambiente profissional e acadêmico, demoraria até que elas preenchessem o conjunto de talentos à espera de um cargo expressivo. Mas, depois de 40 anos compondo a maioria dos formandos de alguns países, esse raciocínio está perdendo força. De acordo com Claudia Goldin, professora de economia de Harvard, o "último capítulo" da história da ascensão feminina - salários iguais e acesso aos melhores empregos - só virá com grandes mudanças estruturais.

Num recente estudo publicado na American Economic Review, descobriu-se que a diferença entre os ganhos horários de homens altamente qualificados e suas equivalente femininas aumenta muito nos primeiros 10-15 anos da vida profissional, principalmente por causa da alta remuneração de alguns empregos muito bem pagos, que exigem longas jornadas de trabalho e disponibilidade constante. No geral, é mais fácil para os homens trabalhar assim. Nas indústrias em que empregos desse tipo são comuns, como administração e direito, a diferença salarial entre os gêneros continua grande, e mesmo breves períodos fora da força de trabalho resultam num considerável impacto negativo, o que significa que a maternidade pode ter um preço alto. Quando a remuneração é proporcional às horas trabalhadas, a diferença entre os gêneros é pequena, como na indústria farmacêutica.

Sempre haverá empregos nos quais a flexibilidade não é uma opção, diz Claudia: diretores executivos, advogados processuais, cirurgiões, alguns banqueiros e políticos do alto escalão do governo vêm à mente. Em muitos outros casos, a remuneração não precisa depender da disponibilidade ininterrupta - e homens de alta escolaridade que desejem ter uma vida fora do trabalho também seriam beneficiados pela mudança. Mas a nova lacuna entre os gêneros está no outro extremo do espectro salarial. E não são as mulheres que estão sofrendo, e sim os homens de baixa qualificação.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR AUGUSTO KALIL, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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