Menos álcool na gasolina zera reajuste

Mercado acha que Petrobrás deve aumentar gasolina em maio e a mudança na mistura impediria que a alta chegasse aos consumidores

Kelly Lima e Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2011 | 00h00

A redução do porcentual de etanol na gasolina pode ser a saída que o governo procura para reduzir o impacto da alta dos combustíveis na inflação. Também anularia o efeito de um eventual reajuste da Petrobrás no preço de refinaria, que o mercado cogita para maio.

Ontem, o ministro de Agricultura, Wagner Rossi, admitiu que o governo pode reduzir a mistura dos atuais 25% para 18%, seguindo o novo piso estabelecido por Medida Provisória editada pela presidente Dilma Rousseff anteontem. "Tem sinalização, sim e pode ser que haja a redução de mistura", afirmou Rossi.

Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), se o governo autorizasse hoje a redução, a gasolina C (já misturada) chegaria às distribuidoras com um desconto de 5,1%. Caso a Petrobrás fosse autorizada a reajustar a gasolina para zerar a defasagem com o mercado internacional (em torno de 25%), este desconto, ainda segundo cálculos do CBIE, cairia para 2,8%.

A redução, no entanto, não chegaria ao consumidor. A tendência é de desaparecesse depois do acréscimo de impostos (57%), mais margens de distribuição e revenda. Desta forma, a redução na mistura funcionaria como um colchão para absorver o impacto do reajuste da Petrobrás, da mesma forma que o governo fez no passado ao mexer na Contribuição de Intervenção de Domínio Econômico (Cide).

Quando a Petrobrás elevou os preços em 2008, a Cide foi reduzida, evitando que a oscilação chegasse ao consumidor final. Efeito semelhante, de forma inversa, ocorreu em 2009, quando o preço nas refinarias caiu. Agora, além de evitar o repasse ao consumidor, a alteração na margem do etanol descarta uma redução na arrecadação tributária, já que não haveria necessidade de mexer na Cide.

A estratégia de redução da mistura chegou a ser rechaçada por vários especialistas do setor que argumentam que a Petrobrás teria que aumentar sobremaneira a importação de gasolina para suprir esta demanda.

Distribuidores. Para o presidente do Sindicato Nacional das Distribuidoras de Combustíveis (Sindicom), Alísio Vaz, a medida apenas serve para alertar as usinas e frear a alta neste início de safra, até que o etanol que começou a ser produzido chegue ao mercado. Ontem pós 13 altas semanais seguidas, o anidro caiu12,62% e o hidratado recuou 8,20% segundo apurou o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq).

Segundo o diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, a companhia trabalha com um prazo médio entre a última semana de maio e início de junho para que seja possível perceber a volta do consumidor da gasolina para o etanol. "Vai depender muito de como o preço vai se comportar neste início de safra, qual vai ser a oferta que chegará ao mercado e se o consumidor vai se sentir seguro e disposto para voltar para o etanol."

Costa frisou que, caso a migração não ocorra na medida esperada, a "Petrobrás estará pronta para importar gasolina novamente." Para ele, "isso não é nenhum problema, porque as quantias são pequenas", minimizou o diretor. A estatal importou uma carga total de 1,5 milhão de barris de gasolina em abril e já encomendou mais um milhão para maio, volume equivalente a cerca de cinco dias do consumo nacional.

A necessidade de importação se deve à incapacidade das refinarias nacionais de aumentarem seu ritmo de processamento, já muito próximo do limite. O diretor descartou que haja hoje qualquer ponto de desabastecimento no País.

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