Menos brasileiros estão endividados em agosto, diz CNC

Pesquisa mostra que, no período, 63,1% das famílias relataram ter dívidas, contra 65,2% em julho

Mariana Durão, da Agência Estado,

27 de agosto de 2013 | 10h40

RIO DE JANEIRO - O número de consumidores endividados recuou em agosto, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da instituição, divulgada nesta terça-feira, 27, mostra que 63,1% das famílias relataram ter dívidas neste mês. Em julho, o total das famílias endividadas era de 65,2%. Na comparação anual, porém, o porcentual de endividados foi superior ao de agosto de 2012, quando 59,8% das famílias declararam ter dívidas. A pesquisa considera como dívidas contas a pagar em cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro.

A inadimplência em agosto foi menor na comparação com julho, mas maior ante agosto de 2012. O porcentual das famílias com dívidas ou contas em atraso chegou a 21,8%, ante 22,4% em julho. Em agosto do ano passado, no entanto, 21,3% das famílias estavam com dívidas ou contas em atraso. O porcentual de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso caiu em ambas as bases de comparação. O total passou de 7,4% em julho para 7,0% em agosto. Em agosto de 2012, 7,1% das famílias se consideravam nessa situação.

Percepção do consumidor

O porcentual de famílias endividadas voltou a cair em agosto após alcançar o segundo maior patamar da série no mês anterior. Em nota, a CNC aponta que, apesar dessa queda, a percepção das famílias em relação ao seu nível de endividamento não melhorou. A proporção que relatou estar muito endividada ficou estável na comparação mensal e superou o patamar observado em agosto de 2012. Houve redução do porcentual de famílias que se declararam pouco endividadas, de 26,1% para 25,9%.

"A redução do número de famílias endividadas é compatível com a moderação observada no mercado de crédito e do volume de vendas do comércio, proporcionada pela menor confiança do consumidor em relação à sua renda e à inflação", explica o comunicado da CNC.

Segundo a CNC, apesar da piora da percepção das famílias em relação ao seu nível de endividamento, melhorou a perspectiva da capacidade de pagamento, acompanhando a redução do endividamento e da inadimplência. "A menor pressão sobre o custo de vida com desaceleração da inflação e o crescimento mais moderado do crédito proporcionam condições positivas para os indicadores de inadimplência", destaca a nota.

Tendência

O recuo do número de famílias com dívidas em agosto frente a julho não reverte a tendência de alta do endividamento em 2013. O nível de 63,1% de endividados no mês é o terceiro maior do ano na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), atrás apenas de julho (65,2%) e maio (64,3%). Apesar disso, o perfil de endividamento é mais positivo e ligado em boa parte a uma reorganização das finanças dos brasileiros.

"Não vemos esse nível de endividamento com preocupação. O perfil é diferente de períodos de alta, como 2010 e 2011, em que houve incentivos fortes ao crédito e consumo. Agora cresce a busca por modalidades de crédito com prazo mais longo e juros mais baixos", diz Marianne Hanson, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), responsável pela pesquisa divulgada hoje. Um exemplo é o crédito consignado, que em agosto de 2012 tinha participação de 4,6% entre os tipos de dívidas e agora saltou a 5,8%.

A economista chama a atenção também para o peso do financiamento imobiliário no movimento de alta em 2013. A modalidade de crédito ainda fica muito atrás de outras, como o cartão de crédito e financiamento de automóveis, mas não para de crescer. Em agosto 6,8% das famílias apontaram a compra da casa como uma das principais dívidas, porcentual que no mesmo mês do ano passado era de 5,6% e no início da pesquisa da CNC, em 2010, era de apenas 3,1%. "É reflexo de incentivos para o crédito imobiliário, aumento da classe média e da renda", explica.

Embora a CNC aponte que uma trégua na inflação reduziu a pressão sobre o custo de vida em agosto, favorecendo os índices de inadimplência, Marianne Hanson diz que ainda há preocupação com o impacto da trajetória dos preços sobre o orçamento das famílias. A CNC, diz, vem traçando cenários com o efeito da alta do dólar sobre as vendas do varejo. "Mantido o patamar atual deve haver repasse para alguns produtos. Mas a expectativa é que as famílias reduzam o consumo de bens cuja compra pode ser adiada", diz a economista. Ela destaca bens duráveis mais afetados pelo câmbio, como eletroeletrônicos e eletrodomésticos.

Outro ponto que merece a atenção da CNC é um eventual aumento do custo do crédito por conta do aperto monetário, ou seja, a elevação dos juros básicos pelo Banco Central. "Pode trazer um impacto negativo na inadimplência, mas por enquanto é algo discreto", afirma.

O número de famílias inadimplentes foi de 21,8% em agosto, menor que os 22,4% de julho e levemente superior ao total de agosto de 2012 (21,3%). A parcela média da renda comprometida com dívidas caiu na comparação anual, de 29,6% para 29,4%. Hoje 20,1% das famílias afirmam ter mais da metade da renda mensal comprometida com o pagamento de dívidas, patamar um pouco superior à média histórica (19,3%), mas longe do pico (25,5%). Mas caiu o porcentual de famílias que afirmam não ter condições de arcar com suas dívidas (7%). "O perfil do endividamento coube no bolso das famílias. Mas os juros do crédito no Brasil ainda são muito altos", diz a economista.

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