Menos crianças estão usando bicicletas nos EUA

Segundo especialistas, queda na utilização é efeito direto do aumento do tempo em frente às telas de celulares, computadores e TVs

Jacob Bogage, The Washington Post

15 de junho de 2019 | 04h00

Fabricantes e lojas de bicicletas se preparam para tempos difíceis diante de uma pesquisa de mercado que mostra que menos crianças andam de bicicleta e os preços de equipamentos que devem aumentar com as tarifas impostas pelo governo Trump sobre produtos fabricados na China.

O número de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos que costumava andar regularmente de bicicleta – mais de 25 vezes no ano – diminuiu em mais de um milhão entre 2014 e 2018, de acordo com a Sports & Fitness Industry Association, tanto no caso de passeios casuais pelo bairro ou usando-a em competições ou como exercício.

De 2018 a 2019, as vendas de bicicletas caíram 7% em dólares e 7,5% em unidades vendidas, uma queda tão expressiva que as lojas já aumentaram os preços para contrabalançar a demanda menor, segundo pesquisa de mercado do NDP Group.

Tudo isso tem levado o setor – avaliado em US$ 5,6 milhões - a se resguardar e se preparar para dias mais difíceis, de acordo com a National Bicycle Dealers Association.

O governo Trump impôs uma tarifa de 25% sobre produtos chineses num valor total de US$ 250 bilhões e tem ameaçado dobrar os impostos.

Essas tarifas têm impacto sobre todos os componentes, do quadro metálico aos assentos de tecido e também sobre as bicicletas já prontas enviadas para os Estados Unidos depois de montadas na China.

As lojas passam os custos para o consumidor, disse Brian Nagel, diretor gerente e analista de pesquisa no banco de investimento Oppenheimer, elevando substancialmente o preço de venda, incluindo acessórios, como capacetes, faróis e luvas. “Os CEOs de companhias fabricantes de bicicletas comparecerão perante o Representante comercial dos Estados Unidos para falar sobre essas tarifas: que os preços das bicicletas subirão e que menos crianças as usarão”, disse o presidente do grupo People for Bikes, organização sem fins lucrativos que trabalha estreitamente com as fabricantes, lojas e dos ativistas que defendem o uso da bicicleta para fitness.

“As consequências disso vão além do número de crianças que andam de bicicleta”, acrescentou ele, referindo-se aos benefícios sociais do exercício físico na infância. “No mercado de massa, as tarifas terão um enorme impacto.”

Arnold Kamler, diretor executivo da companhia Kent International, escreveu um artigo publicado pelo The Washington Post em que afirma que sua empresa já suportou todos os tipos de atribulação econômica, mas nunca enfrentou um contratempo como o representado pelas tarifas chinesas. “A nova tarifa elevou em 7,5% os custos em geral, e fomos obrigados a transferir esses encargos para os consumidores americanos. Quando as férias chegaram, os consumidores desistiram de comprar por causa dos preços mais altos. Nossas vendas foram 5% a 10% menores do que projetamos”.

Exercício

Os defensores do uso da bicicleta para fitness e analistas do mercado de produtos esportivos são unânimes quanto ao que vem afastando as crianças das bicicletas. O principal culpado, dizem eles, é o tempo que elas passam diante da tela, seja dos celulares, da TV ou videoclipes. Segundo um estudo feito em 2018 pela American Heart Association, crianças e adolescentes entre 8 e 18 anos passam em média mais de sete horas por dia diante da tela.

“Reservar um tempo para passear e andar de bicicleta é um desafio”, disse Brandee Lepak, presidente da National Bicycle Dealers Association. 

O mercado de bicicletas infantis é também um segmento crucial para as fabricantes e varejistas. O fato é que, além da velha estratégia de negócios de atrair os consumidores quando são jovens e torná-los consumidores fiéis a vida toda, as crianças tradicionalmente também usavam a bicicleta para brincar e como meio de transporte.

Elas ainda andam de bicicleta regularmente mais do que as pessoas de outras idades. E à medida que crescem elas têm de substituir seus capacetes, luvas e outros acessórios, e eventualmente a própria bicicleta.

Isso torna o cenário potencialmente assustador para o setor: se as crianças estão usando menos a bicicleta, um número menor delas vai desejar ou precisar de uma nova quando crescerem, especialmente com os preços mais altos por causa das tarifas. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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