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Menos custos e menos empregos

Já não dá para dizer que hoje os setores automobilístico e de autopeças tendam a expandir as vagas de trabalho; como estar preparado para essa nova realidade?

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2018 | 20h30

Durante décadas, a justificativa principal do governo brasileiro para cada pacote de bondades proporcionado para a indústria de veículos foi de que se tratava de garantir a criação de empregos e, mais do que isso, de garantir empregos de qualidade. Na verdade, esta era apenas a justificativa. Essas operações tiveram a única função de proteger a atividade das montadoras. E essa tem sido a principal razão pela qual o setor é tão pouco competitivo.

De todo modo, não há nada que possa negar a qualidade desses empregos, não apenas na indústria de veículos propriamente dita, mas, também, na indústria de autopeças e na rede de concessionárias. No entanto, já não dá para dizer que hoje sejam setores que tendam a expandir o emprego.

Essa situação já vem mudando há algum tempo. São segmentos da produção nacional que vêm sendo fortemente robotizados e submetidos a novas arrumações administrativas altamente poupadoras de mão de obra, desde 1980, quando o engenheiro basco José Ignacio López de Arriortúa foi para a General Motors (GM) e, a partir de lá, passou a coordenar mudanças radicais nas linhas de montagem, destinadas a reduzir custos. Mas duas notícias recentes mostram que esse enxugamento vai alcançar cada vez mais a criação de empregos.

A primeira dessas notícias nos dá conta de que as redes de concessionárias no Brasil, a partir de iniciativas da Fiat, começam a ser transformadas em showrooms. Terão lá nada mais que meia dúzia de unidades (veículos) para demonstração. As vendas e as encomendas serão feitas pela internet ou por outro aplicativo digital. O objetivo é reduzir os dispêndios com estoques e, com eles, também os custos com pessoal.

A outra notícia nos vem dos Estados Unidos. Há dez dias, a CEO da GM, Mary Barra, anunciou que vai fechar 5 fábricas nos Estados Unidos e no Canadá e outras 2 em outros países (não foi divulgado onde), operação que vai dispensar 15 mil funcionários. O objetivo, outra vez, é cortar custos e preparar as fábricas para montar veículos elétricos e veículos autônomos.

A montadora fez esse anúncio apesar da forte pressão feita, até mesmo pessoalmente, pelo presidente Donald Trump para que coisas assim não aconteçam: “Que eles deixem de produzir carros na China e que abram nova fábrica em Ohio. Eu disse a eles [ GM] que estão brincando com a pessoa errada”.

Trump ameaçou não só cortar a ajuda à GM destinada à produção de carros elétricos, mas, também, aumentar as taxas alfandegárias para forçar as montadoras a darem prioridade à produção local e desistirem de projetos no exterior. No entanto, a assinatura do T-MEC, novo acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, no último encontro do G-20, prevê a isenção de tarifas para até 2,6 milhões de veículos exportados ao ano por canadenses e mexicanos ao território estadunidense.

Ainda assim, a disseminação do veículo elétrico, por si só, muda muita coisa. Os motores elétricos são mais simples do que os convencionais. Dispensarão, por exemplo, complexas fábricas de componentes para motores, como são hoje as versões a diesel ou de ciclo Otto. Toda a rede de manutenção também será reciclada e, naturalmente, dispensará pessoal. Mais e mais, boa parte das atuais oficinas mecânicas, inclusive as não ligadas a concessionárias, tende a se transformar em autoelétricos.

Essas transformações não se limitarão ao setor de veículos. Todo setor produtivo está sendo chamado agora a atualizar-se na nova revolução hoje denominada indústria 4.0. E boa parte do varejo não terá outra saída senão também unificar seus estoques em centros de logística e transformar seus pontos de venda em showrooms.

Dos vendedores que continuarão a atuar no chão das antigas lojas se exigirá cada vez mais que se transformem em orientadores ou consultores, para que as compras dos consumidores depois sejam fechadas pela internet e pelos aplicativos disponíveis. E, obviamente, toda a operação será tocada com o mínimo de gente.

Como se vê, por toda parte se multiplicam os sinais de grandes transformações no emprego e, no entanto, o Brasil continua despreparado para enfrentá-las. A sociedade não parece convencida de que é preciso mudar o ensino, especialmente o ensino técnico, e preparar novos centros de treinamento para atualizar o trabalhador brasileiro para os novos tempos.

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