FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Menos de 10% buscam cursos técnicos

Toda vez que a economia cresce, as empresas têm dificuldades em preencher as vagas com profissionais que tenham qualificação

Marcelo Rehder- ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 03h00

O Brasil mostrou ter a melhor educação profissional do mundo, mas 9 em cada 10 empresas enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados no mercado toda vez que a economia cresce. Menos de 10% dos jovens brasileiros recebemeducação profissional ao mesmo tempo que a regular. É pouco se comparado, por exemplo, a países da União Europeia, que têm em média 50% dos estudantes do ensino secundário também matriculados no ensino técnico. 

Na Áustria, 77% dos estudantes do secundário fazem ensino profissionalizante, segundo o Centro Europeu para o Desenvolvimento da Educação Profissional. Na Finlândia, são 69,7% e na Alemanha, 51,5%. Já no Brasil, só 8,4% dos jovens trilham esse caminho.

“Sabemos fazer uma educação profissional de excelência, porém ela ainda tem uma abrangência muito pequena”, diz Rafael Lucchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

A alta qualidade do ensino profissional brasileiro foi demonstrada na 43.ª edição da WorldSkills, a maior prova prática para estudantes da educação profissional e tecnológica do mundo, realizada no mês passado em São Paulo. Entre 62 países participantes, a equipe brasileira foi campeã, com maior número de medalhas e certificados de excelência, deixando para trás potências como China, Japão, Áustria, França e Alemanha.

No entanto, só o reconhecimento mundial não basta. Uma pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral em 2013, quando o mercado de trabalho brasileiro ainda estava aquecido, mostrou que 91% das companhias tinham dificuldade na contratação de profissionais, especialmente para vagas de técnico, vendedor, administrador, gerente de projetos e trabalhador manual. A maioria reclamava da escassez de profissionais capacitados para funções específicas, falta de visão global dos candidatos e deficiência na formação básica, além da falta de fluência em inglês.

Sem muitas alternativas, 60% das empresas disseram ter reduzido exigências para preencher vagas de nível técnico. Abriram mão, por exemplo, de experiência e fluência em inglês. Entretanto, o problema não é bem esse.

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que 90% dos postos de trabalho abertos no Brasil exigem ensino médio completo, o que corresponde a 12 anos de escolaridade. Só que 40% dos trabalhadores nem sequer completaram o ensino fundamental e 16% são analfabetos funcionais – sabem ler, mas não conseguem interpretar um texto ou fazer operações matemáticas básicas.

A principal dificuldade, segundo Lucchesi, é a educação básica. Enquanto os trabalhadores europeus, japoneses e americanos têm, em média, 13 anos de escolaridade, os brasileiros têm só 5 anos. “É como se quiséssemos contratar apenas japoneses, americanos e europeus, porque o índice de escolaridade lá é mais ou menos o que a indústria brasileira requer e a mão de obra daqui tem uma escolaridade variada, normalmente menor do que esta”, diz o diretor do Senai. “E não temos tantos japoneses, europeus e americanos aqui no Brasil”, acrescenta bem humorado.

Matriz educacional. Para ele, seria preciso mudar a matriz educacional do País de modo a fortalecer o ensino técnico. São dois os alvos principais colocados por Lucchesi: melhorar a qualidade da educação regular e aumentar a abrangência da educação profissional. “O índice de escolaridade do trabalhador brasileiro é baixo e a qualidade desses anos de escola também é muito baixa, tanto que 90% dos jovens que concluem o terceiro ano do ensino médio não aprenderam o adequado em matemática e 70% não aprenderam o adequado em língua portuguesa”, argumenta. “Essas pessoas vão para o mercado de trabalho sem ter tido uma hora de educação profissional e com um ensino regular de má qualidade.”

Na avaliação do diretor do Senai, a lógica educacional do País precisa tirar o foco do chamado bacharelismo. Só 17 em cada 100 jovens brasileiros que saem do ensino médio regular frequentam a universidade. “Mesmo assim, continuamos agindo como se o destino de todos os nossos jovens fosse a universidade”, observa. Se os 83 restantes não frequentarem a educação profissional, eles vão para o mercado de trabalho sem nenhuma preparação, o que é ruim para eles e péssimo para a economia do País.

“Além de reduzir as oportunidades de ingresso desses jovens no mercado de trabalho, essa restrição reduz também a produtividade do trabalho na indústria brasileira”, diz Lucchesi.

O trabalhador sem qualificação leva mais tempo para desempenhar suas tarefas e isso faz o produto brasileiro ficar mais caro e perder competitividade internacional. E as empresas passam a enfrentar cada vez mais dificuldades para crescer, aumentar a produção e ampliar o quadro de pessoal.

Num momento de arrefecimento do mercado de trabalho, como o atual, são se pode abrir mão da qualificação de trabalhadores, estejam eles empregados ou não, diz o diretor do Senai. Segundo ele, essa é, inclusive, uma estratégia para facilitar a retomada de crescimento da economia. 

“A educação profissional melhora o ambiente de negócios e pode ser um parâmetro importante para a decisão de novos investimentos por empresários”, afirma. “Na perspectiva do trabalhador, a qualificação pode reduzir o risco de desemprego ou, ao menos, reduzir o tempo de permanência fora do mercado de trabalho.”

Cochilo. Não é de hoje que a indústria brasileira perde competitividade. A produtividade do trabalhador brasileiro é muito baixa se comparada, por exemplo, à do americano. “Precisamos de cinco brasileiros para ter a mesma produtividade de um americano”, diz Lucchesi. 

O índice de produtividade médio do brasileiro corresponde a 17% do índice dos Estados Unidos. Em 1965, há exatos 50 anos, essa relação não era muito diferente – estava em 15%. Os coreanos, por sua vez, tinham apenas 11% da produtividade dos norte-americanos. “Hoje, os coreanos já estão em 50% e nós patinamos para 17%, quer dizer, tiramos um cochilo de meio século em produtividade”, afirma o diretor do Senai.

Visto como um esforço na direção correta da mudança da matriz educacional brasileira, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) sofre com o ajuste fiscal. 

O número de vagas destinadas ao programa este ano foi reduzido em dois terços em relação às vagas de 2014. Serão abertas 1 milhão de vagas para cursos profissionalizantes, ante 3 milhões no ano passado.

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