Menos escolarizados ainda são os mais atingidos

Apesar de a perda de fôlego da economia deixar o mercado de trabalho um pouco mais hostil aos mais qualificados do que já foi no passado, a maioria afetada pelo aperto nas vagas são os menos escolarizados, diz Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper. Segundo ele, em razão da queda da renda das famílias nos últimos anos, mais jovens com menos qualificação ingressam no mercado de trabalho à procura de vagas no comércio ou em serviços.

CLEIDE SILVA E ANNA CAROLINA PAPP, O Estado de S. Paulo

07 de junho de 2015 | 05h00

“Nos últimos dez anos houve aumento da renda dos pais, o que possibilitou que o jovem não precisasse trabalhar ou fazer bicos para ter o próprio dinheiro”, explica Menezes Filho. “Agora, com a desaceleração da economia, o salário real parou de crescer e o desemprego começou a aumentar. Para complementar a renda da casa, o jovem, que antes só estudava, começa a procurar emprego.”

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, mostram que o saldo de postos de trabalho (diferença entre admissões e desligamentos) na faixa dos que têm ensino superior completo caiu de 19,4 mil em abril de 2014 para 500 em abril deste ano. O saldo positivo indica que esse mercado ainda gera vagas, embora a intensa desaceleração seja preocupante.

Já o saldo entre pessoas que têm apenas o ensino médio completo caiu, no mesmo período, de 77,7 mil para 26,1 mil negativos – ou seja, já há fechamento de vagas. “É preciso lembrar que a parcela de jovens que chega ao ensino superior ainda é muito baixa no Brasil, cerca de 20%”, diz Menezes Filho. “Dos 80% restantes, apenas metade chega a concluir o ensino médio.”

Para ele, “os escolarizados podem ter um pouco mais de dificuldade por causa da atual desaceleração da economia, mas sem dúvida os mais afetados pela alta dos índices de desemprego são os menos qualificados”.

Acesso. Outro recorte das estatísticas da situação dos jovens no mercado de trabalho, feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), confirma que, na região metropolitana de São Paulo – onde se concentra o maior número de jovens com educação superior –, a situação é mais difícil para os menos escolarizados.

O desemprego atinge 22,6% das pessoas da região com 18 a 24 anos, fatia que era de 19,8% em 2014. Considerando todas as faixas, a taxa média de desemprego é de 12,4%.

Entre os jovens, 37% dos desempregados têm ensino médio completo. Já entre aqueles com formação superior, o índice é irrelevante e não aparece nas estatísticas. “São poucos os jovens que chegam ao ensino superior, e esses poucos conseguem trabalho”, avalia a coordenadora do Dieese, Lucia Garcia.

Para ela, esse cenário reforça a necessidade de medidas que facilitem o acesso do jovem ao ensino superior. “Tudo o que prejudica o avanço da escolarização prejudica o jovem e o próprio País.”

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